Sócrates
Era uma noite de terça-feira para o mundo. Chovia excessivamente e o frio deixava os corpos às avessas, mas nada era capaz de acabar com a minha ansiedade. Saí da redação com o gravador pendurado no ombro, o microfone na mão trêmula e uma pauta dobrada no bolso, molhada pela chuva. Peguei o primeiro ônibus que passou, sentei na cadeira gelada e olhei ao meu redor. Não havia ninguém. Então, tirei as duas folhas sulfites da calça, desdobrei-as e li em letras itálicas: Sócrates. Naquela fatia de tempo entre a hora do jantar e a madrugada de quarta-feira eu iria encontrar com o Doutor, um dos maiores seres humanos da história do mundo.
A entrevista havia sido marcada no fim de semana. Sócrates não gostava de atender telefonemas, talvez por considerar os olhos orgãos mais importantes que as cordas vocais. Tentei convencê-lo a falar conosco por duas semanas, mas sua teimosia reinou. Na última ligação, recebi a orientação final da sua esposa.
- Venha até ele, e eles vos falará.
Marcamos para a terça-feira, dia em que Sócrates participava do programa “Cartão Verde”, da TV Cultura, às oito da noite. O caminho até a emissora foi longo, como nunca havia sido antes. Da janela encharcada tentava me lembrar de alguma resposta não dada, alguma pergunta não feita, algum comentário despercebido, qualquer coisa que levasse ao Doutor um pedaço de ineditismo. Desci na Lapa e fui caminhando por uma rua escura até a sede do canal. Assinei meu nome no caderno de visitas e entrei na sala de espera. Revista, água, alguns passos pelo carpete de madeira e um leve diálogo com o segurança.
- Você é da Bandeirantes?
- Sim.
- Vai entrevistar o Sócrates?
- É. Finalmente ele resolveu me atender.
- Ele é “gente fina”.
Aquela expressão me fez lembrar do seu apelido da época de Botafogo de Ribeirão Preto, que era absurdamente repetido nas várias entrevistas que já tinha assistido com ele: “Magrão”. Aguardei quase uma hora na sala cercada de vidros até o mesmo segurança me avisar que ele já estava me esperando. Então, entrei por um longo corredor a céu aberto, passei em uma porta larga que desembocava num estacionamento, virei para uma porta menor, cruzei duas salas e saí num dormitório mal iluminado, com uma mesa lotada de doces e duas poltronas. Em uma delas estava Sócrates, sentado com os braços sobre os joelhos e olhando para mim com uma tranquilidade interiorana.
- Então é você que quer falar comigo, garoto?
Dei um sorriso leve, que expressou facialmente o nervosismo da primeira entrevista exclusiva e pessoal em dois anos de carreira jornalística. A fração de segundos entre o olhar e o agir fez com que uma das pessoas que estava na sala olhasse para mim com um tom irônico. Percebi que o encantamento era questão de tempo, tão precioso naqueles poucos minutos que tinha para fazer minhas perguntas ao Doutor. Pluguei o microfone ao gravador, tirei a pauta molhada do bolso, coloquei sobre o colo e comecei a entrevista.
- Sócrates, recentemente um jogador de futebol do Rio Grande do Sul foi jogar em Belém, no Pará, e disse que a cidade fica no fim do mundo. O que você diria para ele?
- Eu diria que sou do fim do mundo, ué. O que mais eu poderia falar?
Foram exatos dezesseis minutos entre a frenesi do primeiro contato até o término de sua última resposta. Ao longo daqueles seus 57 anos, não haveria como contar quantas vezes já tinha respondido sobre a Democracia Corinthiana, movimento que liderou no início dos anos 80, sobre sua relação com a torcida alvinegra, a Seleção Brasileira de 1982, os companheiros, a dupla vida de médico e jogador de futebol, a bebida e a sua vida política. No entanto, não se esquivou de nenhuma das minhas questões. Respondeu-as como sempre: um olhar perdido em algum horizonte visível somente a ele, com palavras curtas e seguidas por uma conclusão que resumia toda a história.
- Posso tirar uma foto com o senhor?
- Claro. Só não me chame de senhor – respondeu, dando uma gargalhada áspera.
Olhei na máquina fotográfica e vi que a fotografia estava lá, tão viva quanto aquele momento. Se pudesse, sentaria ali naquela poltrona e ficaria discutindo Cuba, relembrando gols, perguntando besteiras, falando de Corinthians, pedindo mais fotos e fatos. Acordei. Coloquei o gravador no ombro, prendi o microfone na barra da calça, joguei a pauta, que ainda resistia no bolso, no balde de lixo, e saí.
Antes de passar pela guarita da emissora e ganhar a rua, olhei para trás, apenas na expectativa de constatar sua existência.
A entrevista foi ao ar na íntegra dois dias depois, no programa Fanáticos por Futebol, da Rádio Bandeirantes de São Paulo.
Exatos um mês e dez dias depois da entrevista, recebi a notícia da sua morte, numa manhã ensolarada de domingo. Imediatamente lembrei daquele último frash de existência, dele sentado na poltrona com as mãos no joelho e me chamando de garoto, esperando pelas mesmas perguntas que ele já havia respondido em metade dos seus 57 intensos anos.
A partir daquele momento, ele já não fazia parte do meu pensamento singular, mas do plural da imortalidade.
Clique aqui e ouça a entrevista de Sócrates
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dezembro 9, 2011 às 7:38 pm
Show de bola! Ta crescendo em “garoto” rsrsrsr saudades de ti!
dezembro 10, 2011 às 3:28 pm
Imagino como esse momento deve ter sido sublime.
Sócrates reúne muito daquilo que vemos como de mais exemplar em um ser humano: democracia, comunismo, engajamento, justiça, Corinthians.
É difícil acreditar que ele se foi. Vive eternamente dentro dos nossos corações.
dezembro 11, 2011 às 6:56 pm
Que bonito isso. Mostrou bem sua emoção antes e durante a entrevista.
Ouvi o audio… hahaha q voz de bebado o socrates…
“Futebol ta mt dificil de assistir, tá muito feio” hahahaha foda
Beijos.
dezembro 13, 2011 às 11:55 pm
Bom, eu achei sensacional esse texto, combinado com a entrevista na rádio. Não sou corintiano, mas via o Socrates com muita simpatia. Era dos poucos jogadores que pensavam o esporte e muito além. E, de certa forma, não jogava pra torcida. Sabia manter o pensamento independente. Algo cada dia mais raro. E, com a morte do irmão com péssimo gosto clubístico do Raí, ficou ainda mais raro.