Dois mil e onze
Os contadores de histórias de Arimandía irão se fartar com seus filhos ao relembrar o intenso ano de dois mil e onze. Talvez seja ousadia afirmar isso, mas há tempos não se via as ruas tão vivas, os ventos tão praianos e o céu tão azul nesta terra perdida na América do Sul como nesses meses que completaram mais uma fatia de tempo da história da humanidade. Os cronistas jorram poesia, os músicos compõem como nunca e as instituições se reinventam como os ratos. É por isso que já se ecoa nas vielas arimandíanas um boato consistente: este é o momento perfeito para se viver as momentaneidades da vida.
No entanto, não foi assim o ano todo. Lá pelos idos de fevereiro a turbulência de Fermina Serrajos inaugurou a chuva em Arimandía. As nuvens se precipitaram por duas semanas seguidas, deixando o ar tão úmido que era possível ver os bichos do mar nadando acima dos telhados. Os ribeirinhos fugiram para as montanhas, os pescadores guardaram seus barcos e os videntes anunciaram um fim do mundo parecido ao de dois mil e nove, mas as águas tiveram piedade do povo arimandíano. Fermina Serrajos, perdida entre suas perdições, foi expulsa. Suas estátuas foram derrubadas, suas crônicas foram queimadas e o seu cheiro foi abolido das ladeiras, deixando sua existência apenas nas lembranças dos velhos conservadores.
O sol surgiu em junho, com o advento de Renata Remédios. Sua existência resplandeceu como deja vú em Arimandía. Seu rosto perfeitamente moldado ao resto das coisas, o sorriso que forma um mundo paralelo e sua incrível simpatia de princesa latina pareciam ser conhecidos há muito tempo por estas terras. Desde que Renata Remédios foi proclamada primeira-dama arimandíana que o mundo mudou, assim como seu nome: é conhecida pelas crianças e idosos como Meme, assim como em Cem Anos de Solidão. As flores cresceram como jamais havia se visto, a felicidade atingiu níveis tão altos que contagiou os animais domésticos e até os objetos conquistaram a liberdade, com a permissão concedida para falarem e viverem. Nos cinco meses e seis dias que se seguem desde a sua chegada ao portão de entrada do território arimandíano, não houve registro de tempestades nem qualquer outro levante natural, e seu amor é tão supremo que já é encarado como eterno entre as províncias.
Em dois mil e onze Arimandía conheceu pessoalmente o undernismo californiano. Os sons inexistentes do baixo de Flea e os falsetes desafinados de Anthony Kiedis invadiram os flancos dos castelos, acordaram os mortos velados antes da meia noite e retorceram todos os materiais mais fracos que o ferro. Os acordes foram tão estridentes nesta nação que até os homens da guarda real não resistiram às ondas sonoras e saíram pelos jardins suspensos fazendo movimentos com os braços e forçando um bico nos beiços. A natureza também não controlou seus ápices: as ondas invadiram a praia sete vezes durante uma música e outra, as árvores se soltaram de suas raízes e foram vistas rebolando nos arredores de Las Pasiones e a lua foi encoberta pelo sol por uma hora e trinta e dois minutos, tornando a noite em um dia ensolarado de sábado. Foi nessa época também que Renata Remédios tornou-se patrimônio poético de Arimandía.
Os andes foram desbravados, a altitude de seus lagos foi contestada e os odores da revolução foram sentidos em Santa Cruz de La Sierra, metrópole boliviana. O hálito inquieto de Arimandía atingiu os meios sul-americanos, num progresso inédito da militância arimandíana. Apesar disso, poucas praias foram descobertas, nenhuma cidade interiorana foi conhecida e as cúpulas de governantes mochileiros não saíram de suas rotinas trabalhistas, de modo que o capítulo de viagens de dois mil e onze quase não foi utilizado pelos seus escribas.
Apesar das bonanças deste ano, Arimandía ainda não compreendeu a existência do dinheiro. As dívidas se acumulam nos celeiros, nas praças e nos escritórios paralelos. Os preços aumentaram, os gastos explodiram e o capitalismo entrou pelas frestras dos muros que separam Arimandía do mundo. Talvez a volta seja irreversível, mas a entrada do lucro por aqui é vista com bons olhos por nações abonadas que rodeiam as fronteiras arimandíanas.
A escassez de dinheiro, porém, não atrapalha o amor que assopra em todos os fins de tarde em Arimandía. Assim que o sol se esconde nos andes que protegem os nossos prédios, Renata Remédios cumpre uma rotina peculiar: abre todas as janelas do casarão imperial e assobia “Under the Bridge” na cabeça de todos os leiteiros, pais de família, poetas e moradores das praças que se esmagam para vê-la no portão do palácio. Então, anuncia-se o começo do dia útil. As crianças vão para as escolas, os idosos lêem seus jornais, as mães preparam suas sestas e os homens plantam suas letras no campo.
Juntos, Renata Remédios, Red Hot Chili Peppers, andes sul-americanos e a felicidade eterna da existência vão escrevendo o fim de mais um capítulo deste livro de vinte e um anos, e esperando um dois mil e doze tão completo quanto uma crônica de Gabriel García Marquez.
DOIS MIL E ONZE EM VÍDEOS:
Bolívia
El Hado (In)Propício [TCC]
Under the Bridge – Red Hot Chili Peppers Rock in Rio
DOIS MIL E ONZE EM IMAGENS:
- Praza 24 de Setiembre, Santa Cruz de La Sierra, Bolívia







novembro 25, 2011 às 5:13 pm
Brilhante suas aventras neste ano. Eu tive o prazer de conviver com você em alguns destes episódios. Que 2012 seja melhor ou tão bom quanto 2011. Um abraço do seu amigo boliviano, Bruninho!
novembro 25, 2011 às 6:12 pm
Que ano!
Com certeza um dos melhores, se ñão for o melhor dos últimos anos. Formado, mudou de emprego, foi efetivado, RHCP, viagem à Bolívia e o amor surpreendente de Renata “Remédios”. Esse sobrenome fake veio bem a calhar. Foi a cura para suas dores.
Mas ainda acho que é muito cedo para uma retrospectiva. Claro que dificilmente muitas coisas acontecerão, mas ainda há tempo para dias marcantes. O Penta é um deles. E ainda terão outros, eu acredito.
novembro 25, 2011 às 9:59 pm
Um amigo mais completo q ja tive rsrs,só tem um problema é chato á bessa! Inspirações de um ano em que teve oportunidade de viver cm se deve. Espero poder participar de alguns episódios que vc vai levar pra vida toda. Quero ter o prazer de ter um nome ou sobrenome “fake” em umas das suas inspirações mais perfeita! Saudades? Sempre… Ellen
novembro 28, 2011 às 12:48 am
Um amigo mais completo q ja tive rsrs,só tem um problema é chato á bessa! Inspirações de um ano em que teve oportunidade de viver cm se deve. Espero poder participar de alguns episódios que vc vai levar pra vida toda. Quero ter o prazer de ter um nome ou sobrenome “fake” em umas das suas inspirações mais perfeita! Saudades? Sempre… Ellen
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