Orfão de joelho

Éramos três: eu e meus dois joelhos. Confesso que nunca me importei muito com eles. Éramos felizes e não sabíamos. Não contava muito com o esquerdo, por vários motivos. No futebol ele sempre me deixava sob as piadas dos adversários e as broncas dos companheiros de time. Na hora de dormir, era sempre o mais desajeitado e difícil de virar. Na vida, sempre me impediu de chutar as garrafas de plástico pedindo uma decolagem pelo caminho. A gente vivia em um clima tenso.

Sempre fui mais apegado ao meu joelho direito. Nas manhãs de sono era ele quem me ajudava a subir a escadinha do ônibus, que dava o impulso para a pequena corrida até a minha mesa de trabalho nos dias de atraso, que se consagrava nas mesmas peladas de futebol e até para me motivar a dar o primeiro passo rumo a  uma garota.

Sinto saudades do meu joelho direito. De dobrá-lo com voracidade para dentro, num exercício comum nas minhas manhãs, de sair pela rua deserta no início da noite cobrando uma falta imaginária e colocar a bola que sequer existe no ângulo do gol de mentirinha. Sinto saudades das viagens que fizemos juntos, esticando as pernas nas poltronas de ônibus e observando, juntos, a paisagem que passava por entre nossa existência. Sinto saudades de sentar com as pernas cruzadas e, amparado por sua força histórica, dançar com a bunda no chão. Até hoje não encontrei um ser humano capaz de repetir esse movimento.

Perdi sua presença debaixo dos braços do Cristo Redentor. Ele estava feliz na última vez que o vi. Nas fotos, aparece sorridente, sincero e aparentemente ansioso. No nosso último momento antes de perdê-lo, passou um filme na minha cabeça. Vê-lo daquele jeito fez o coração e os outros ossos arderem. O cadáver do meu joelho estava desfigurado, protegido pela capa preta que encaminha a alma para o céu, escondido debaixo da multidão que enlouquecia com o baixo de Flea.

O esquerdo sorriu. Talvez pensou que pudesse assumir a titularidade, ajudar este velho homem a subir os mesmos ônibus, chutar as mesmas bolas imaginárias e dar os necessários impulsos amorosos, mas falta-lhe capacidade. Até mesmo depois da morte do meu joelho direito, apenas o que restou de minha perna continua executando o serviço.

O joelho, em sua essência, deve estar no mesmo lugar onde repousa humildemente a rótula direita de Mário Prata, em algum bairro suburbano de Montevideo. Uma morte uruguaia seria mais digna para ele, tão apaixonado pela mulher América. Mas quis o destino que o seu enterro fosse em um bairro afastado do Rio de Janeiro. Voltei para São Paulo orfão. Pensei em abrir uma instituição para pessoas que também perderam seus joelhos, repensei no Ronaldo como garoto-propaganda, mas esbarrei na tristeza para recomeçar e em um estranho dizer aos meus ouvidos dizendo que ele ainda vai voltar.

Enquanto isso não acontece, eu não existo. Nem eu nem meus joelhos.

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2 Comentários em “Orfão de joelho”


  1. Este é um dos textos mais legais da atual safra deste blog. Ele pegou um episódio aparentemente banal, um problema no joelho direito, e fez o que faz muito bem: crônica e poesia. Ainda não é o João e o banheiro, mas, certamente, está no meu ranking dos cinco textos que mais gostei.


  2. Muito legal!
    E o comentário do Marcelo foi certeiro. Acho que esse texto surgiu de um bom momento da vida do autor. A gente sempre consegue tirar ideias desse tipo quando estamos leves.

    Ah, pela minha experiência, os joelhos sempre voltam. E mais dispostos!


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