O som de uma vida inteira

Daquela primeira nota de Can’t Stop em uma tarde nublada de Peruíbe até o último acorde de Give It Away, na última madrugada do Rock in Rio, se passaram nove anos e alguns dias da minha vida. Foram tempos distintos, entre as estradas de Santos e as ladeiras colegiais, o toca-fitas do carro e o primeiro albúm comprado irregularmente por aí, além dos amores necessários para qualquer vida que se preze.  Os períodos não se cessaram, mas em todos eles eu estive debaixo da sombra dos acordes inevitáveis do Red Hot Chili Peppers.

No começo, não havia uma noite sem a graça de Scar Tissue. A primeira música do primeiro walk-man, herança de meu pai, foi uma Californication surrada de uma fita cassete gravada às pressas. Descia a serra com a companhia das malas, dos postes que iam ficando para trás e de Anthony Kiedis berrando a Califórnia que existia em algum lugar do mundo. O primeiro Mi Maior do baixo de Flea em Otherside abria caminho para uma estrada que eu não havia trilhado até ali, nos meus distantes doze anos de vida, onde eu ainda não havia tido a oportunidade de fazer escolhas, mas já sabia responder sobre minha banda preferida.

Não demorou para eu adotar o asterisco em meus rabiscos. A porta do meu quarto tinha um anúncio gigante da presença deles ali, os cadernos da escola eram quase sempre repletos de letras, cifras e, claro, o asterisco vermelho enorme na capa dura e manchada de dedos. Quando o advento da internet bateu nos limites da minha casa, me aprofundei. Ouvi álbuns, descobri discos, conheci histórias, desfrutei pensamentos, e aquele símbolo passou a fazer ainda mais parte de tudo o que era bom na vida.

Então veio o amor, ao som de Zephyr Song. Bastava ouvir os acordes graves de John Frusciante nessa música para voar até os cabelos loiros daquela garota de olhos verdes da época de escola. Ela se foi no tempo, mas o solo final da canção permanece até hoje nos meus ouvidos. Corria pelo apartamento encarpetado quando, em algum lugar do mundo, alguém tirava um By The Way do esconderijo. Parecia que Chad Smith estava ali, do meu lado, tocando exclusivamente para aquela criança aprendiz de rock ouvir.

A vida tomou sentido mesmo depois de Under the Bridge. Não lembro a primeira vez que tive a dádiva de descer pelas pontes de Los Angeles e sentir cada acorde penetrar a alma, mas desenvolvi um modo de vida onde não poderia passar um dia sem perceber a maravilha que eram aqueles últimos riffs, parecendo um anúncio do futuro. Do Lá Maior para o Dó Maior, já no ômega da música, havia um mistério irrelevante, mas completamente vivo. Há uma vida dentro daquele conjunto de acordes.

Com o primeiro salário, comprei Live At Slane Castle. No princípio, chegava a assistir duas vezes por dia, repetindo músicas exaustivamente, numa espécie de continuação da mesma coisa. Sabia até os movimentos de Anthony Kiedis em Around The World, as falas de Flea logo depois de Don’t Forget Me, as caretas de John Frusciante no solo de Throw Away on Television, o ritmo das baquetas de Chad em Parallel Universe. Com as vassouras da minha mãe, amarrava um barbante em cada ponta, e me sentia um Pepper por alguns minutos. Devorava blogs, fóruns, sites de fã-clubes e, num inevitável momento de adolescente, desejei ser um californiano.

Já perdi as contas de quantas vezes quis tatuar a tribal indígena que Kiedis tem nas costas, ou o velho asterisco preto de Flea no pulso. Na escola, as discussões musicais se perdiam nos meus conceitos redhotmaníacos. Era My Friends no céu e os outros conjuntinhos na Terra. Nas rodinhas de verão, não curtia o sol das praias enquanto o possuidor do violão não mandasse as iniciais de Road Trippin’ e, num excesso de loucura, desenhei perfeitamente o clipe de Soul To Squeeze dentro de mim, pulando de um prédio para se livrar de uma bolha que até hoje não sei o que realmente significa.

Nesse meio tempo, entre a primeira nota de Can’t Stop lá no longínquo sofá de minha avó paterna, ao lado da minha prima, hoje mãe de família, e o último acorde de Give It Away, num Rio de Janeiro extasiado, eu resolvi crescer um pouco também. Chorei em noites mal dormidas com Wet Sand, We Believe e Hey, inventei danças com Higuer Ground, Suck My Kiss, Charlie, Warped e Me and My Friends, usei letras de I Could Die For You e Dani California para conquistar paixões e surtei quando aprendi a tocar a mesma Under the Bridge no violão.

Existem tantas outras músicas, meu Deus! Blood Sugar Sex Magic nas noites repletas de mulheres, One Hot Minute nos bares da vida, Tearjerker nas viagens onde pular estados era obrigação, Breaking the Girl nas indiretas cotidianas e ela, a rainha das canções de rock, a precisão inesquecível da guitarra, o nirvana das cordas do baixo com as batidas da bateria no solo estridente de Soul To Squeeze.

Daquela primeira nota de Can’t Stop, em uma tarde nublada de Peruíbe até o último acorde de Give It Away, eu estive deitado nos braços de qualquer coisa que se chamasse Red Hot Chili Peppers. Dormindo nos acordes, nos falsetes, nas batucadas, nos riffs, nos dedilhados, e acordei na uma hora e quarenta e três minutos de realidade do show de sábado, no Rio de Janeiro. Talvez seja tempo suficiente para contar a história de uma vida inteira.

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3 Comentários em “O som de uma vida inteira”


  1. Só os loucos por uma banda de rock conseguem entender o que você quer expressar com esse texto.

    Embora muitas pessoas pensem que se trata apenas de música boa ao nossos ouvidos, é muito mais que isso. Nossa banda favorita está presente em nossa vida em diversos momentos, nos ajuda a crescer, nos entender, entender o mundo, nos dá força e esperança.

    Tive duas vezes a oportundidade de ouvir a música que amo ao vivo. Não há nada igual.

    Que o Red Hot Chili Peppers seja mais frequente em sua vida! E, se não for, a lembrança desse dia permanecerá.

  2. Renata Diz:

    Uma palavra pra esse dia: sensacional!!!


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