23 de agosto de 2035
Eduardo Vasconcelos Rua Augusta, s/ nº, São Paulo/SP
Logo que o dia nasce – quente, cada vez mais – um entregador da Fedex toca a campainha. A cortesia vem de Santiago. É um novo aparelho que eu ainda não aprendi a pronunciar o nome e que contém o mais novo livro (não no sentido físico, mas se conservou como expressão) do jornalista Vinícius Mendes, meu velho amigo. Hoje é aniversário dele, mas sou eu quem recebe o presente “pelas inúmeras contribuições feitas à Previdência Social de Arimandía durante a ‘formação’ de seu Estado”. Menos poético, mas ainda em outro mundo.
Cinco minutos depois, o telefone toca. É uma ligação de La Paz. “Vou entrar no ar agora. Não perca!” Ele diz isso antes mesmo de eu lhe dar os parabéns. O correspondente internacional na América do Sul locomove-se de uma cidade a outra por semana. A entrada ao vivo era para cobrir a posse do novo governo boliviano, que ele veladamente apoiou em suas reportagens. Atualmente, está no seu 12º emprego. Sempre em grandes redações.
Cerca de dez minutos após sair do ar, me liga de volta, falando como um estagiário que fez a sua primeira entrevista jornalística. “Nossa! Que foda esse momento! Caramba! É inacreditável!”, comemora o “estagiário” com quase 30 anos de profissão. “E você, tudo bem? Tenho um amigo aqui, combinamos de sair com umas bolivianas”, me diz antes de desligar o celular, que é do câmera.
Assim como eu, não casou. Ficou em dúvida por qual mulher amava, então se decidiu pela América, “a verdadeira Isabela”. Desde o fim do romance com a primeira Isabela, quem ele não vê mais desde 2018, quando foi cobrir a Copa do Mundo, na Rússia, amou muitas mulheres. A maioria, aliás, por um ou dois meses.
É pai de um garoto que tem a idade de quando nos conhecemos. A relação entre eles, porém, é distante. O menino vive falando em sociedade igualitária, enquanto ele, que criticava o pai capitalista, investiu na Bolsa de Valores e publicou artigos criticando a postura do Brasil ao ajudar os Estados Unidos a se livrarem da décima crise financeira do século XXI. “Esses aí tem que comer na nossa mão!”, era o título de um de seus textos.
O livro que me enviou se chama “Diário de um undernista – reportagens de um coração arranhado”. É uma ficção baseada em fatos reais. Conta a história de um jovem repórter que, quando não sentia o êxtase da vida jornalística, se enamorava de paixões repentinas. Porém, até hoje estou esperando que termine “Arimandía, uma terra no coração dos homens”, prometido desde o longínquo terceiro título da Libertadores da América conquistado pelo Sport Club Corinthians Paulista, em 2019. Acho que estamos quites: na ocasião, ele prometeu o livro, e eu, que iria casar.
Não só de Isabela, a original, mas de todos os amigos da juventude não temos mais notícias. Conforme os anos passaram, os vínculos diminuíram. As novas gerações quase não sabem o que significa criar vínculos. Como diria um de nossos mais admiráveis professores de jornalismo, o consumismo venceu.
Mais tarde, depois da prazerosa leitura dos primeiros capítulos do “Diário de um undernista”, abro o meu e-mail. Ao passar da idade, a vida nos surpreende cada vez menos. Em meio a mensagens de lojas ofertando produtos, só há um nome reconhecível na caixa de entrada. “Blzzz???”, é o assunto do e-mail. “Vou passar o fds no Brasil. Vamos fazer alguma coisa??? Abraço!”. Assinatura: Vinícius Mendes, poeta.
Quem mais poderia ser?
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agosto 23, 2011 às 5:20 pm
FANTÁSTICO ! ! !
agosto 24, 2011 às 2:54 am
Realmente, fantástico! Parabéns aos dois!