O fascinante lugar em que todas as mulheres chamam-se Isabela
Marcelo Martins
Vinícius Mendes vive em dois mundos. O primeiro é este nosso mesmo. Um mundo que, convenhamos, não facilita a vida dos visionários e poetas. Pelo contrário. O noticiário cheio de guerras, mazelas e injustiças é um constante desafio para quem quer enxergar algo de belo no mundo. Construir sonetos, mesmo pobres, é um tremendo desafio. É preciso escavar as palavras e depois, feito um estivador, erguer uma rima. É por isso que Vini, como os amigos o chamam, descobriu um novo mundo. Chama-se Arimandía.
Ninguém sabe direito o tamanho deste mundo. Há quem diga que é do tamanho de dois continentes, outros relatos dão conta que ele é uma ilha menor que Cuba. Na verdade, este é um detalhe desimportante. O lugar é tão fascinante e extraordinário que ninguém teve nem tempo de fazer mapa. E nem adiantaria. A fronteira, brincalhona não respeita os tratados internacionais. É muito difícil estudar geografia em Arimandía.
Se os geográfos não tem vida fácil, o mesmo não pode ser dito dos cronistas. Todo mundo é cronista. E poeta. Na praça central, uma estátua de Gabriel Garcia Marquez em tamanho natural observa e enfeitiça os seus moradores. É bom que se diga que os pássaros em Arimandía não se atrevem a fazer as suas necessidades na bela construção de bronze. Eles nem cagam, pra dizer a verdade. Apenas cantam. O repertório das aves vai de Tom Jobim a Red Hot Chili Peppers. É famosa a espécie de canário, da família dos Undernistas, que é especializado em cantar Under the Bridge. Espetáculo deslumbrante.
Voltando aos cronistas e poetas. Em Arimandía o que move a economia é a poesia. Pode parecer meio maluco, mas deixa eu explicar. Neste mundo não existe dinheiro. Todas as transações comerciais são feitas com poemas e crônicas. Exemplo: uma bala custa um funk carioca, daqueles bem podreira mesmo. Rima pobre e sem valor. Uma mansão pode variar entre 500 poesias drummondianas a 1000 linhas à moda de Cem Anos de Solidão. É preciso muito tempo para juntar tanta bagagem literária. Trabalho de uma vida inteira. A balança comercial também move-se com poemas que é, como não poderia deixar de ser, o principal item de importação e exportação dos arimandíanos.
Com tamanha dedicação às rimas, como fica a política? Ela existe? Claro que sim! E o presidente foi eleito por aclamação popular. Seu nome: Ernesto Che Guevara. Sim, o próprio. Você acha que ele morreu, né? Está vivo e mais saudável que muitos dos seus compatriotas ideológicos do nosso mundo… Um dia ele foi encontrado semeando a revolução por Arimandía. Foi então convidado – melhor dizendo, intimado -, a cuidar das questões políticas. Che relutou um pouco. Achava que era muita responsabilidade, mas, para felicidade geral da nação, ele topou. O único problema é que, de vez em quando, ele simplesmente desaparece sem dar explicação. E nem precisa. Todo mundo sabe que ele está buscando, incansável, a revolução além da fronteira. O bacana é que Che Guevara sempre volta…
Agora, com licença, preciso falar do aspecto que mais me encanta nesta terra: as mulheres. Primeiro, elas são a maioria da população. Para cada cueca fedorenta, são umas dez damas. São tão lindas que fazem as mulheres do sul do Brasil parecerem feias. São poetisas e musas ao mesmo tempo. Os homens, coitados, perdem-se nesse paraíso: não sabem direito para quem fizeram determinado poema, que acaba virando um poema universal. Em Arimandía, quando um romance acaba todo mundo sabe. As lágrimas viram poesia. Curiosidade: todas as mulheres chamam-se Isabela, mesmo aquelas que, na maternidade, ganharam outros nomes. Não importa. A lei de Arimandía é implacável e chama todas de Isabela.
Ninguém vai se incomodar com uma bobagem dessas, certo?
Eu poderia falar muito mais de Arimandía. Mas eu prefiro encerrar por aqui. As linhas acima, coitadas, não conseguem dar conta de tudo que existe nesse mundo. São frágeis e, temo dizer, mentirosas. Para muitos podem parecer exageradas, mas são precárias em tentar descrever o paraíso. Não conseguem. Nessa altura do texto, o amável leitor deve estar querendo saber onde fica Arimandía, né? Sinto informar, mas não existe voos regulares para lá. As agências de turismo não vendem pacotes. Aos mortais, como eu e você, leitor, só resta espiar por uma pequena fresta deste mundo: o Mundo de um Visionário.
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agosto 24, 2011 às 2:52 am
Que texto fascinante! Ouso dizer que me deliciei nessas linhas.