Guardem Vinícius Mendes!
Felipe Jesus
Prendam Vinícius Mendes. Depois o coloquem dentro de um vidro com formol, para que todas as gerações conheçam a rara espécie de ser humano que ainda pisa por aqui. Esse é o primeiro passo para que possa se entender a canção californiana que sai dos seus dedos entre os ausentes trausentes que lhe rodeiam nessa efeméride das ruas.
Sua maior virtude é a simpatia. Não há uma classe social que não seja beneficiada com um bom dia, um sorriso aberto ou um comentário inoportuno com o objeto claro de alegrar a chuva diária de cada um. Não há diferença entre o terno e o macacão azul, entre a vassoura e a maleta, entre o cobrador de ônibus e o dono da empresa. O ser humano é acima de tudo sua maior paixão.
Porém, no centro de Arimandía o que vemos com a clareza dos campos são as mulheres. Talvez seja o maior espanto que Vinícius Mendes ainda nos causa. Já se vão nove meses e algumas cacetadas que eu me mantenho com a mesma moça lá dos andos da zona leste, enquanto ele se divide entre os cabelos, olhos e bocas das meninas de todas as outras zonas. É um mulherengo, na concepção mais exata, e pior quando usa o usual chapéu preto. Esquece o nome, vira don. Confesso que tenho até inveja. Uma hora é a moça do cabelos curtos do carnaval passado, na segunda hora é a eterna interiorana orgulhosa que não cansa de atormentar-lhe com suas esquisitices, na terceira hora é a mulata que brota em um segundo quando ele resolve ter algúem pra sair. E passam-se as horas, e passam-se as mulheres. E não passa a minha falta de entendimento.
Talvez uma história justifique a questão. Uma certa noite, tomando cerveja num bar, ele me contava extasiado sobre mais uma crônica amorosa do dia anterior, quando lhe perguntei das dívidas, do emprego, do carro quebrado, das brigas com o pai, da faculdade, da obrigação de todo menino de 20 anos que busca seu lugar ao sol. Categórico, ele lançou seus olhos cor-de-mel em minha direção:
- O importante é o amor, a paixão, o sentimento, a mulher. Foda-se o resto.
Desconcertei da vida, e nunca mais lhe perguntei sobre isso. Na verdade nem precisei mais. Aquele “foda-se o resto” me fez entender o desconcerto que uma mulher (ou várias) faz na vida dele. A sustância da sua atenção assusta, apaixona, é mal interpretada por quem acredita que aquilo é o seu máximo de amor. Não, é apenas um pouco do que ele pode oferecer a qualquer criatura de cabelos longos. O envolvimento em si é um entorpecente que ele tira e põe como se fosse uma roupa.
E quando penso que já o conheço como nunca, ele me surpreende como sempre. Brota no meu portão de madrugada só para contar mais uma história impressionante entre tantas histórias impressionantes que ele tem para contar, começa a gritar na rua com a mesma delicadeza com a qual tirou a roupa no meio da praia em um reveillon e saiu andando entre as pessoas, e ainda olha para nós, mortos de vergonha de tudo aquilo, como se nada tivesse acontecido.
É capaz de conversar com qualquer um. Já o tirei do meio dos usuários de crack, na Rua dos Gusmões, onde ele batia um papo tranquilo. Já o tirei do meio dos rockeiros da Augusta, com quem insistia que Red Hot Chili Peppers é melhor do que qualquer outra banda de metal. Já o tirei do meio dos mendigos da Praça da Sé, com quem queria dividir um salgado que havia comprado minutos antes. Já o tirei do meio da Avenida Paulista, sozinho, com o carro batido e o coração amassado. Mas me orgulho dos vários dias que o tirei de casa para recriarmos os vários momentos de companheiro que passamos por estas ruas e praias.
E é assim, entre as mulheres, as histórias e as músicas de Red Hot Chili Peppers, que Vinícius Mendes deve ser guardado. Para que as futuras gerações saibam que ainda existe um ser humano como tal.
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agosto 1, 2011 às 1:15 am
Hahahahaha
Adoreeei!
Parabéns Felipe pelo belo texto, e ao Bini pelo ser humano raro que é!!
agosto 1, 2011 às 1:44 am
Esta série começou maravilhosamente bem! Ansioso pelos próximos capítulos…
agosto 1, 2011 às 1:49 am
Conseguem tirar o don do meio de usuários de crack, de rockeiros e de mendigos, mas não do mundo paralelo em que ele vive.
hahahah
agosto 3, 2011 às 12:32 am
Bom saber o que é Vini nos olhos dos outros…..
“Esta série começou maravilhosamente bem! Ansioso pelos próximos capítulos…” [2]