Plaza Cariñito

Publicado maio 20, 2012 por Vinícius Mendes
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Eram dois.

Em Arimandía, onde tudo cheirava o odor fresco do amor, não havia nenhuma criatura que não os conhecesse. Não muito pelas fotos espalhadas pelas capitais nem pelas manchetes cotidianas e muito menos pelo ritual diário de abertura de janelas do grande casarão onde viviam para liberar o cheiro forte que fluía dos tapetes e móveis acolchoados. A fama era fruto de um brilho não identificado que saía dos olhos de Renata Remédios, princesa de Arimandía desde o último inverno. A graça de seu caminhar, a beleza de seus pés e o patrimônio estético que era o seu sorriso fazia com que o país acordasse todos os dias mais feliz. O que mais atraía as atenções públicas, no entanto, era a necessidade da presença física. Poucas vezes se viu Renata Remédios perambulando sozinha por estes pedregulhos nacionais com seu tradicional rosto de felicidade, e talvez seja inédito um sorriso seu fora dos limites dele. Ele também só aparecia de mãos vazias por aí quando a obrigação falava mais alto que o sentimento.

Eram dois.

Dois que se entrelaçavam em planos, noites e viagens. Renata Remédios, a estrela do relacionamento, percebia seu futuro em terras distantes da pequena Arimandía e com filhos devidamente matriculados em escolas tradicionais dos barões da educação, mas não imaginava nem os próximos cinco minutos sem a anuência dele. Ele, por sua vez, olhava o mar de águas turvas que jorrava do tempo que tinha pela frente e observava revoluções esquisitas, visitas inapropriadas e cinco empregos informais, mas não pensava em viver nada destas coisas se não fosse acordar todos com os dias com benção amorosa que saía da boca de Renata Remédios. Ela, popular Meme, era mais articulada que ele. Seus planos eram devidamente registrados no cartório do céu, suas percepções eram anotadas em cadernos que ela guardava nos fundos do palácio real e tudo o que lhe rodeava era o suficiente para um comentário alheio em uma noite de sábado numa cama improvisada no chão. Ele era quase um clandestino. Torrava o ouro que gotejava do solo arimandiano com compras inúteis que só serviam para o seu prazer e tinha algumas opiniões estranhas: preferia sal a açucar e era muito mais feliz debaixo de uma coberta do que nos ventos frios das ruas.

Eram dois.

Mas em Arimandía, terra onde cada ser humano tem o direito a novos sentimentos no tempo que achar por bem, eles eram quase uma população. As mulheres se vestiam como Renata Remédios pelas calles apenas pelo desejo se ser como ela. Dessa forma, sua tradicional jaqueta preta com detalhes de pêlo de carneiro nas golas era copiada a exaustão, seu sapato de salto altíssimo com fivelas nos tornozelos era uma moda eterna e seus vestidos de renda eram quase uma unanimidade nacional. Ele não mantinha tendências fortes no povo, exceto o gosto pela leitura e o amor pela América do Sul. O sorriso dela, com as medidas das covinhas e o alinhamento dos dentes, era uma obrigação entre essas mulheres magras que trabalham com a beleza. Seus olhos (ora grandes, ora pequenos) era um mistério tão profundo que inundava de dúvidas até mesmo os velhos videntes que restavam no alto das coisas.

Eram dois.

E o número dois se tornou tão importante por causa disso, que o governo não demorou para criar o dia nacional do número dois, em homenagem a Renata Remédios e ele. O cheiro forte do amor que saía do casarão onde viviam (e que como já foi dito neste relato, servia de ritual todas as manhãs) atravessava a avenida principal, virava umas três ruas à esquerda e uma última a direita até atingir a maior praça de Arimandía, a “Plaza Cariñito”, onde todos os dias surgiam novas criaturas dispostas a formar o número dois. Ali, diariamente, formavam-se amores, paixões e desejos carnais que eram satisfeitos em quartos não-remunerados nos prédios ao redor. Glória maior era ser batizada como Renata, não necessariamente Remédios, que era um sobrenome típico de Macondo. As adolescentes grávidas escreviam R-E-N-A-T-A em suas barrigas e saíam pelas ruas como vencedoras, as mães maduras que haviam tido a brilhante ideia de “renatiar” suas filhas antes do advento da princesa, em 2011, eram tão felizes que imitavam o ritual de abertura das janelas de suas casas apenas para liberar o cheiro de alegria que impregnava nas roupas, e as avós que se chamavam Renata ganhavam netas e bisnetas e tataranetas com o mesmo nome debaixo do argumento que, se a anciã da casa podia ter tal misericórdia, todas as mulheres da casa também podiam ter. Foi tanto que, em uma última pesquisa, se constatou que havia mais Renatas em Arimandía do que espécies de aves no mundo inteiro. Eram Renatas Marias, Renatas Antônias, Marias Renatas, Renatas das Graças e outras milhares e milhões de formas de batizar várias pessoas com o nome de uma só.

Eram dois.

E mesmos nos poucos conflitos, eram dois. Renata Remédios não suportava os esquecimentos, alguns pensamentos e todos os outros mentos negativos dele. Ele não tinha vida quando ela usava suas grosserias contra ele. As maiores brigas, no entanto, eram nos períodos em que estavam longe. Ele, quase sempre mergulhado em papéis jornalísticos, telefonemas e uma máquina que lhe obedecia as ordens com toques coordenados, admitia, em dias ímpares, sua ausência semanal. Ela sempre tinha alguma reclamação anotada para fazer, fosse uma palavra mal falada, um olhar mal olhado ou um ato não feito. Mas se esquecia de reclamar sempre que o via esperando-a nos cantos mais distintos de sua existência. Então, bastava um encontro para que todas as indiferenças se transformassem em um beijo absurdamente mais amoroso que o último que havia sido dado.

E então, eram dois.

Mas, quando lhe espiavam pelas frestas da vida, já não se via dois.

Ali, já eram apenas um.

Receita de você

Publicado março 18, 2012 por Vinícius Mendes
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Não que seja preponderante
Mas é imponderável a sua presença nas minhas próximas
trinta e quatro vidas (se é que elas existem…).
Todas apóstolas do velho manual do amor
Criado pelos milímetros de segundos
Com você.

Mas que em todas elas
você seja tão você quanto o que descrevo a seguir.

Que o rosto seja uma extensão mais terna das deusas renascentistas
Tão sublime que o seu desenho lembre as melhores fotografias, comidas                                                                                                                         [e prazeres.
E, (talvez o mais importante), que em algum momento remeta a alguma                                                                                                                  [fruta.
Para dar um tom de natureza na própria natureza

É desejável que os olhos sejam medianos.
(Deus me livre os olhos grandes!)
A bolinha de dentro deve ser tão negra quanto a bolinha de fora, que por                                                                                                               [sua vez, deve ser tão preta que desafie a própria cor preta
Mas que sejam tão vivos que acendam fogueiras com um simples golpe
Que abram mares que caibam na palavra “enorme”
Que façam chover na terra torpe
E depois me olhe com a simplicidade de uma tarde de domingo.

O nariz deve ser fino ou largo ou simplesmente um nariz
(acabei de descobrir que não me importo com os narizes).
O que observo mesmo é a boca
Essa sim, deve ser deitada num ângulo que chegue perto dos 60 graus
Esteja exatamente dois centímetros abaixo das narinas e a mesma                                                                                                                 [medida acima do queixo
Não pode estar longe dos seios também, para facilitar a troca de                                                                                                                    [informações nas noites de sábado
É necessário cantos finos, beiços leves e uma fácil inclinação para o ato do beijo

Continue sendo pequena
Numa estrutura tão bem projetada que caiba
(com as pernas cruzadas e os braços dentro do corpo)
perfeitamente no banco do passageiro de um carro
Acredite, não há poema nem palavra que descreva essa posição

Continue sendo mal-educada
E espirre seu charme na cara dos outros sem a menor displicência
Derrame o oléo da beleza nas ruas sem se preocupar com os garis
Jogue as flores do seu sexo pelas calçadas sem se importar com as                                                                                                    [donas de casa
E, principalmente, continue sendo orgulhosa com qualquer outro ser humano do sexo masculino

Que não seja eu.

Continue sendo menos magra que essas mulheres de metrô
É mais preferível ter excessos de pele do que excessos de nada
E o mais importante do que qualquer coisa: cuide dos seus pés!
Lá pela vigésima quarta vida, quando eu estiver te amando vinte e                                                                                                                   [quatro vezes mais
Vou olhar para eles com os mesmos critérios que usaria se tivesse te conhecido
vinte e quatro segundos antes do nosso primeiro olhar

Ah, os pés…
Se eu fosse Deus colocaria os seus pés em toda a humanidade
As veias como se fossem afluentes, os dedos formando uma fila única de                                                                                                [maior pra menor
A gordurinha necessária perto do tornozelo, a cor mais escura que o                                                                                                                   [restante da perna
O dedão dando as ordens, as unhas milimetricamente encaixadas
com as pinças do céu

Um último conselho: siga estas receitas
e pedirei às autoridades locais mais um pacote de vidas
Para admirar todos os dias os melhores detalhes

Que se constituem em você

244 dias, 13 horas e alguns minutos

Publicado fevereiro 18, 2012 por Vinícius Mendes
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Uma homenagem à Renata Barros Soares

Ela era uma garota livre que não imaginava jamais prender suas mãos nas algemas do amor. Ele era um garoto preso aos ideais da juventude que não imaginava jamais mergulhar na liberdade de uma paixão. Ela não olhava para ele com os olhares maliciosos do desejo. Ele não desistia de jogar indiretas para ela nas noites de insônia. Ela relutou aos primeiros convites de bares, festas e sarais de bossa-nova. Ele, sempre que podia, lançava uma nova oportunidade de ficar a sós com ela. Mas ela fugia. E ele ria.

Por educação, ela concordou em dividir uma mesa de bar com ele. Por esperança, ele colocou a sua melhor roupa no dia do encontro. Ela temia os acontecimentos com ele: chamou amigas, inventou desculpas e até tentou cancelar o rolê. Ele esperava pelos acontecimentos com ela: mudou rotas, aceitou exigências femininas e até prometou voltar cedo pra casa. No horário marcado, ela estava linda. E ele chegou atrasado.

Sentaram.

Ela falava do último carinha da balada. Ele falava da última viagem pela América. Ela bebia um gole de cerveja a cada quatro suspiros de seu corpo. Ele mergulhava no seu copo de Fanta com limão a cada frase terminada. Ela ficou bêbada na terceira dose. Ele estava tão sóbrio que dissertava sobre García Marquez e o realismo mágico colombiano. E então, ela não esperava mais nada da noite. Mas ele, com os planos traçados, observava o que a lua os tinha reservado.

- Há uma pequena praça nesta grande cidade onde os pequenos beijos se tornam grandes amores – disse ele à ela.

- Há um pequeno desejo saindo desta grande boca – pensou ela dele.

Foram.

Ela sugeriu um vinho chileno para brindar o encontro. Ele sugeriu um refrigerante comprado em qualquer posto de gasolina. Ela brigava com a sua indecisão de beijava, não beijava, beijava, não beijava. Ele brigava com seu cérebro pelo momento ideal para roubar um beijo dela. Ela olhava para ele com sorrisos maliciosos. Ele olhava para ela encantado com aquela boquinha levemente deitada.

Ela o abraçou. Ele correspondeu ao abraço.

Ele a beijou. Ela correspondeu ao beijo.

Ele vislumbrou os próximos encontros, as noites de sexta no sofá de casa, as visitas aos amigos, o dia derradeiro em que ela conheceria sua mãe num almoço de domingo e até mesmo o rolezinho de dois anos de namoro. Ela vislumbrou o fim de semana seguinte, quando ficaria indecisa entre ir ao cinema com ele ou ir à balada com as amigas. Ele não queria parar de beijar, abraçar e sentir aquele corpo pulsante. Ela não queria continuar ali, naquele vento frio do relento do alto das coisas.

Ele viveu os meses seguintes na agonia de amá-la um pouco mais a cada dia. Ela viveu os dias seguintes esperando ele ligar. Ele já não conseguia acordar todas as manhãs sem pensar na garota dos lábios de mel. Ela não conseguia acordar sem mandar um sms de bom dia para ele. Ele sentia a tranquilidade de ser amado sem a necessidade formal dos relacionamentos. Ela ficou irritada por ele não pedi-la em namoro.

Ele conheceu os pais dela primeiro. Ela conheceu os segredos dele primeiro. Ele não esquece da viagem ao Rio de Janeiro, do primeiro amor físico, das noites de diversão nas ruas da cidade, das manhãs que serviam apenas para se verem, dos encontros carnais tão absurdos e das inúmeras declarações de amor feitas à beira do mar. Ela não esquece dos domingos que ficou sem ele, das brigas em que ficaram sem se falar, da falta da grana, das frases tortas e todas as outras falhas que existem nele.

E, apesar de todos os esquecimentos e lembretes, dias de sol e de frio, amores e ódios, viagens sóbrias e loucas e sábados noturnos passados no tapete da sala, eles continuam se amando cada vez mais e mais há exatos duzentos e quarenta e três dias, treze horas e trinta e alguns minutos.

um amor

Sócrates

Publicado dezembro 9, 2011 por Vinícius Mendes
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Era uma noite de terça-feira para o mundo. Chovia excessivamente e o frio deixava os corpos às avessas, mas nada era capaz de acabar com a minha ansiedade. Saí da redação com o gravador pendurado no ombro, o microfone na mão trêmula e uma pauta dobrada no bolso, molhada pela chuva. Peguei o primeiro ônibus que passou, sentei na cadeira gelada e olhei ao meu redor. Não havia ninguém. Então, tirei as duas folhas sulfites da calça, desdobrei-as e li em letras itálicas: Sócrates. Naquela fatia de tempo entre a hora do jantar e a madrugada de quarta-feira eu iria encontrar com o Doutor, um dos maiores seres humanos da história do mundo.

A entrevista havia sido marcada no fim de semana. Sócrates não gostava de atender telefonemas, talvez por considerar os olhos orgãos mais importantes que as cordas vocais. Tentei convencê-lo a falar conosco por duas semanas, mas sua teimosia reinou. Na última ligação, recebi a orientação final da sua esposa.

- Venha até ele, e eles vos falará.

Marcamos para a terça-feira, dia em que Sócrates participava do programa “Cartão Verde”, da TV Cultura, às oito da noite. O caminho até a emissora foi longo, como nunca havia sido antes. Da janela encharcada tentava me lembrar de alguma resposta não dada, alguma pergunta não feita, algum comentário despercebido, qualquer coisa que levasse ao Doutor um pedaço de ineditismo. Desci na Lapa e fui caminhando por uma rua escura até a sede do canal. Assinei meu nome no caderno de visitas e entrei na sala de espera. Revista, água, alguns passos pelo carpete de madeira e um leve diálogo com o segurança.

- Você é da Bandeirantes?
- Sim.
- Vai entrevistar o Sócrates?
- É. Finalmente ele resolveu me atender.
- Ele é “gente fina”.

Aquela expressão me fez lembrar do seu apelido da época de Botafogo de Ribeirão Preto, que era absurdamente repetido nas várias entrevistas que já tinha assistido com ele: “Magrão”. Aguardei quase uma hora na sala cercada de vidros até o mesmo segurança me avisar que ele já estava me esperando. Então, entrei por um longo corredor a céu aberto, passei em uma porta larga que desembocava num estacionamento, virei para uma porta menor, cruzei duas salas e saí num dormitório mal iluminado, com uma mesa lotada de doces e duas poltronas. Em uma delas estava Sócrates, sentado com os braços sobre os joelhos e olhando para mim com uma tranquilidade interiorana.

- Então é você que quer falar comigo, garoto?

Dei um sorriso leve, que expressou facialmente o nervosismo da primeira entrevista exclusiva e pessoal em dois anos de carreira jornalística. A fração de segundos entre o olhar e o agir fez com que uma das pessoas que estava na sala olhasse para mim com um tom irônico. Percebi que o encantamento era questão de tempo, tão precioso naqueles poucos minutos que tinha para fazer minhas perguntas ao Doutor. Pluguei o microfone ao gravador, tirei a pauta molhada do bolso, coloquei sobre o colo e comecei a entrevista.

- Sócrates, recentemente um jogador de futebol do Rio Grande do Sul foi jogar em Belém, no Pará, e disse que a cidade fica no fim do mundo. O que você diria para ele?
- Eu diria que sou do fim do mundo, ué. O que mais eu poderia falar?

Foram exatos dezesseis minutos entre a frenesi do primeiro contato até o término de sua última resposta. Ao longo daqueles seus 57 anos, não haveria como contar quantas vezes já tinha respondido sobre a Democracia Corinthiana, movimento que liderou no início dos anos 80, sobre sua relação com a torcida alvinegra, a Seleção Brasileira de 1982, os companheiros, a dupla vida de médico e jogador de futebol, a bebida e a sua vida política. No entanto, não se esquivou de nenhuma das minhas questões. Respondeu-as como sempre: um olhar perdido em algum horizonte visível somente a ele, com palavras curtas e seguidas por uma conclusão que resumia toda a história.

- Posso tirar uma foto com o senhor?
- Claro. Só não me chame de senhor – respondeu, dando uma gargalhada áspera.

Olhei na máquina fotográfica e vi que a fotografia estava lá, tão viva quanto aquele momento. Se pudesse, sentaria ali naquela poltrona e ficaria discutindo Cuba, relembrando gols, perguntando besteiras, falando de Corinthians, pedindo mais fotos e fatos. Acordei. Coloquei o gravador no ombro, prendi o microfone na barra da calça, joguei a pauta, que ainda resistia no bolso, no balde de lixo, e saí.

Antes de passar pela guarita da emissora e ganhar a rua, olhei para trás, apenas na expectativa de constatar sua existência.

A entrevista foi ao ar na íntegra dois dias depois, no programa Fanáticos por Futebol, da Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Exatos um mês e dez dias depois da entrevista, recebi a notícia da sua morte, numa manhã ensolarada de domingo. Imediatamente lembrei daquele último frash de existência, dele sentado na poltrona com as mãos no joelho e me chamando de garoto, esperando pelas mesmas perguntas que ele já havia respondido em metade dos seus 57 intensos anos.

A partir daquele momento, ele já não fazia parte do meu pensamento singular, mas do plural da imortalidade.

Clique aqui e ouça a entrevista de Sócrates

Sócrates

Sócrates

Dois mil e onze

Publicado novembro 24, 2011 por Vinícius Mendes
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Os contadores de histórias de Arimandía irão se fartar com seus filhos ao relembrar o intenso ano de dois mil e onze. Talvez seja ousadia afirmar isso, mas há tempos não se via as ruas tão vivas, os ventos tão praianos e o céu tão azul nesta terra perdida na América do Sul como nesses meses que completaram mais uma fatia de tempo da história da humanidade. Os cronistas jorram poesia, os músicos compõem como nunca e as instituições se reinventam como os ratos. É por isso que já se ecoa nas vielas arimandíanas um boato consistente: este é o momento perfeito para se viver as momentaneidades da vida.

No entanto, não foi assim o ano todo. Lá pelos idos de fevereiro a turbulência de Fermina Serrajos inaugurou a chuva em Arimandía. As nuvens se precipitaram por duas semanas seguidas, deixando o ar tão úmido que era possível ver os bichos do mar nadando acima dos telhados. Os ribeirinhos fugiram para as montanhas, os pescadores guardaram seus barcos e os videntes anunciaram um fim do mundo parecido ao de dois mil e nove, mas as águas tiveram piedade do povo arimandíano. Fermina Serrajos, perdida entre suas perdições, foi expulsa. Suas estátuas foram derrubadas, suas crônicas foram queimadas e o seu cheiro foi abolido das ladeiras, deixando sua existência apenas nas lembranças dos velhos conservadores.

O sol surgiu em junho, com o advento de Renata Remédios. Sua existência resplandeceu como deja vú em Arimandía. Seu rosto perfeitamente moldado ao resto das coisas, o sorriso que forma um mundo paralelo e sua incrível simpatia de princesa latina pareciam ser conhecidos há muito tempo por estas terras. Desde que Renata Remédios foi proclamada primeira-dama arimandíana que o mundo mudou, assim como seu nome: é conhecida pelas crianças e idosos como Meme, assim como em Cem Anos de Solidão. As flores cresceram como jamais havia se visto, a felicidade atingiu níveis tão altos que contagiou os animais domésticos e até os objetos conquistaram a liberdade, com a permissão concedida para falarem e viverem. Nos cinco meses e seis dias que se seguem desde a sua chegada ao portão de entrada do território arimandíano, não houve registro de tempestades nem qualquer outro levante natural, e seu amor é tão supremo que já é encarado como eterno entre as províncias.

Em dois mil e onze Arimandía conheceu pessoalmente o undernismo californiano. Os sons inexistentes do baixo de Flea e os falsetes desafinados de Anthony Kiedis invadiram os flancos dos castelos, acordaram os mortos velados antes da meia noite e retorceram todos os materiais mais fracos que o ferro. Os acordes foram tão estridentes nesta nação que até os homens da guarda real não resistiram às ondas sonoras e saíram pelos jardins suspensos fazendo movimentos com os braços e forçando um bico nos beiços. A natureza também não controlou seus ápices: as ondas invadiram a praia sete vezes durante uma música e outra, as árvores se soltaram de suas raízes e foram vistas rebolando nos arredores de Las Pasiones e a lua foi encoberta pelo sol por uma hora e trinta e dois minutos, tornando a noite em um dia ensolarado de sábado. Foi nessa época também que Renata Remédios tornou-se patrimônio poético de Arimandía.

Os andes foram desbravados, a altitude de seus lagos foi contestada e os odores da revolução foram sentidos em Santa Cruz de La Sierra, metrópole boliviana. O hálito inquieto de Arimandía atingiu os meios sul-americanos, num progresso inédito da militância arimandíana. Apesar disso, poucas praias foram descobertas, nenhuma cidade interiorana foi conhecida e as cúpulas de governantes mochileiros não saíram de suas rotinas trabalhistas, de modo que o capítulo de viagens de dois mil e onze quase não foi utilizado pelos seus escribas.

Apesar das bonanças deste ano, Arimandía ainda não compreendeu a existência do dinheiro. As dívidas se acumulam nos celeiros, nas praças e nos escritórios paralelos. Os preços aumentaram, os gastos explodiram e o capitalismo entrou pelas frestras dos muros que separam Arimandía do mundo. Talvez a volta seja irreversível, mas a entrada do lucro por aqui é vista com bons olhos por nações abonadas que rodeiam as fronteiras arimandíanas.

A escassez de dinheiro, porém, não atrapalha o amor que assopra em todos os fins de tarde em Arimandía. Assim que o sol se esconde nos andes que protegem os nossos prédios, Renata Remédios cumpre uma rotina peculiar: abre todas as janelas do casarão imperial e assobia “Under the Bridge” na cabeça de todos os leiteiros, pais de família, poetas e moradores das praças que se esmagam para vê-la no portão do palácio. Então, anuncia-se o começo do dia útil. As crianças vão para as escolas, os idosos lêem seus jornais, as mães preparam suas sestas e os homens plantam suas letras no campo.

Juntos, Renata Remédios, Red Hot Chili Peppers, andes sul-americanos e a felicidade eterna da existência vão escrevendo o fim de mais um capítulo deste livro de vinte e um anos, e esperando um dois mil e doze tão completo quanto uma crônica de Gabriel García Marquez.

DOIS MIL E ONZE EM VÍDEOS:

Bolívia

El Hado (In)Propício [TCC]

Under the Bridge – Red Hot Chili Peppers Rock in Rio

DOIS MIL E ONZE EM IMAGENS:

Praza 24 de Setiembre, Santa Cruz de La Sierra, Bolívia

Praza 24 de Setiembre, Santa Cruz de La Sierra, Bolívia
Bloom JC - Clube noturno em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia
Vida noturna em Santa Cruz de La Sierra – com Fábio Simões e Bruno Tálamo
Encontro com o amigo Carlos Drummond de Andrade
Rock in Rio 2011 – Red Hot Chili Peppers
Encontro com o amigo Carlos Drummond de Andrade
Encontro com o amigo Carlos Drummond de Andrade
Renata Remédios e a incrível capacidade de ser tudo em tão pouco tempo
Renata Remédios e a incrível capacidade de ser tudo em tão pouco tempo
Renata Remédios e a sua incrível capacidade de amar
Renata Remédios e a incrível capacidade de reinventar o amor
Entrevista com Dr. Sócrates, um dos pensadores mais importantes de Arimandía
Entrevista com Dr. Sócrates, um dos pensadores mais importantes de Arimandía
 

Orfão de joelho

Publicado setembro 30, 2011 por Vinícius Mendes
Categorias: Vinícius Mendes

Éramos três: eu e meus dois joelhos. Confesso que nunca me importei muito com eles. Éramos felizes e não sabíamos. Não contava muito com o esquerdo, por vários motivos. No futebol ele sempre me deixava sob as piadas dos adversários e as broncas dos companheiros de time. Na hora de dormir, era sempre o mais desajeitado e difícil de virar. Na vida, sempre me impediu de chutar as garrafas de plástico pedindo uma decolagem pelo caminho. A gente vivia em um clima tenso.

Sempre fui mais apegado ao meu joelho direito. Nas manhãs de sono era ele quem me ajudava a subir a escadinha do ônibus, que dava o impulso para a pequena corrida até a minha mesa de trabalho nos dias de atraso, que se consagrava nas mesmas peladas de futebol e até para me motivar a dar o primeiro passo rumo a  uma garota.

Sinto saudades do meu joelho direito. De dobrá-lo com voracidade para dentro, num exercício comum nas minhas manhãs, de sair pela rua deserta no início da noite cobrando uma falta imaginária e colocar a bola que sequer existe no ângulo do gol de mentirinha. Sinto saudades das viagens que fizemos juntos, esticando as pernas nas poltronas de ônibus e observando, juntos, a paisagem que passava por entre nossa existência. Sinto saudades de sentar com as pernas cruzadas e, amparado por sua força histórica, dançar com a bunda no chão. Até hoje não encontrei um ser humano capaz de repetir esse movimento.

Perdi sua presença debaixo dos braços do Cristo Redentor. Ele estava feliz na última vez que o vi. Nas fotos, aparece sorridente, sincero e aparentemente ansioso. No nosso último momento antes de perdê-lo, passou um filme na minha cabeça. Vê-lo daquele jeito fez o coração e os outros ossos arderem. O cadáver do meu joelho estava desfigurado, protegido pela capa preta que encaminha a alma para o céu, escondido debaixo da multidão que enlouquecia com o baixo de Flea.

O esquerdo sorriu. Talvez pensou que pudesse assumir a titularidade, ajudar este velho homem a subir os mesmos ônibus, chutar as mesmas bolas imaginárias e dar os necessários impulsos amorosos, mas falta-lhe capacidade. Até mesmo depois da morte do meu joelho direito, apenas o que restou de minha perna continua executando o serviço.

O joelho, em sua essência, deve estar no mesmo lugar onde repousa humildemente a rótula direita de Mário Prata, em algum bairro suburbano de Montevideo. Uma morte uruguaia seria mais digna para ele, tão apaixonado pela mulher América. Mas quis o destino que o seu enterro fosse em um bairro afastado do Rio de Janeiro. Voltei para São Paulo orfão. Pensei em abrir uma instituição para pessoas que também perderam seus joelhos, repensei no Ronaldo como garoto-propaganda, mas esbarrei na tristeza para recomeçar e em um estranho dizer aos meus ouvidos dizendo que ele ainda vai voltar.

Enquanto isso não acontece, eu não existo. Nem eu nem meus joelhos.

O som de uma vida inteira

Publicado setembro 27, 2011 por Vinícius Mendes
Categorias: Vinícius Mendes

Daquela primeira nota de Can’t Stop em uma tarde nublada de Peruíbe até o último acorde de Give It Away, na última madrugada do Rock in Rio, se passaram nove anos e alguns dias da minha vida. Foram tempos distintos, entre as estradas de Santos e as ladeiras colegiais, o toca-fitas do carro e o primeiro albúm comprado irregularmente por aí, além dos amores necessários para qualquer vida que se preze.  Os períodos não se cessaram, mas em todos eles eu estive debaixo da sombra dos acordes inevitáveis do Red Hot Chili Peppers.

No começo, não havia uma noite sem a graça de Scar Tissue. A primeira música do primeiro walk-man, herança de meu pai, foi uma Californication surrada de uma fita cassete gravada às pressas. Descia a serra com a companhia das malas, dos postes que iam ficando para trás e de Anthony Kiedis berrando a Califórnia que existia em algum lugar do mundo. O primeiro Mi Maior do baixo de Flea em Otherside abria caminho para uma estrada que eu não havia trilhado até ali, nos meus distantes doze anos de vida, onde eu ainda não havia tido a oportunidade de fazer escolhas, mas já sabia responder sobre minha banda preferida.

Não demorou para eu adotar o asterisco em meus rabiscos. A porta do meu quarto tinha um anúncio gigante da presença deles ali, os cadernos da escola eram quase sempre repletos de letras, cifras e, claro, o asterisco vermelho enorme na capa dura e manchada de dedos. Quando o advento da internet bateu nos limites da minha casa, me aprofundei. Ouvi álbuns, descobri discos, conheci histórias, desfrutei pensamentos, e aquele símbolo passou a fazer ainda mais parte de tudo o que era bom na vida.

Então veio o amor, ao som de Zephyr Song. Bastava ouvir os acordes graves de John Frusciante nessa música para voar até os cabelos loiros daquela garota de olhos verdes da época de escola. Ela se foi no tempo, mas o solo final da canção permanece até hoje nos meus ouvidos. Corria pelo apartamento encarpetado quando, em algum lugar do mundo, alguém tirava um By The Way do esconderijo. Parecia que Chad Smith estava ali, do meu lado, tocando exclusivamente para aquela criança aprendiz de rock ouvir.

A vida tomou sentido mesmo depois de Under the Bridge. Não lembro a primeira vez que tive a dádiva de descer pelas pontes de Los Angeles e sentir cada acorde penetrar a alma, mas desenvolvi um modo de vida onde não poderia passar um dia sem perceber a maravilha que eram aqueles últimos riffs, parecendo um anúncio do futuro. Do Lá Maior para o Dó Maior, já no ômega da música, havia um mistério irrelevante, mas completamente vivo. Há uma vida dentro daquele conjunto de acordes.

Com o primeiro salário, comprei Live At Slane Castle. No princípio, chegava a assistir duas vezes por dia, repetindo músicas exaustivamente, numa espécie de continuação da mesma coisa. Sabia até os movimentos de Anthony Kiedis em Around The World, as falas de Flea logo depois de Don’t Forget Me, as caretas de John Frusciante no solo de Throw Away on Television, o ritmo das baquetas de Chad em Parallel Universe. Com as vassouras da minha mãe, amarrava um barbante em cada ponta, e me sentia um Pepper por alguns minutos. Devorava blogs, fóruns, sites de fã-clubes e, num inevitável momento de adolescente, desejei ser um californiano.

Já perdi as contas de quantas vezes quis tatuar a tribal indígena que Kiedis tem nas costas, ou o velho asterisco preto de Flea no pulso. Na escola, as discussões musicais se perdiam nos meus conceitos redhotmaníacos. Era My Friends no céu e os outros conjuntinhos na Terra. Nas rodinhas de verão, não curtia o sol das praias enquanto o possuidor do violão não mandasse as iniciais de Road Trippin’ e, num excesso de loucura, desenhei perfeitamente o clipe de Soul To Squeeze dentro de mim, pulando de um prédio para se livrar de uma bolha que até hoje não sei o que realmente significa.

Nesse meio tempo, entre a primeira nota de Can’t Stop lá no longínquo sofá de minha avó paterna, ao lado da minha prima, hoje mãe de família, e o último acorde de Give It Away, num Rio de Janeiro extasiado, eu resolvi crescer um pouco também. Chorei em noites mal dormidas com Wet Sand, We Believe e Hey, inventei danças com Higuer Ground, Suck My Kiss, Charlie, Warped e Me and My Friends, usei letras de I Could Die For You e Dani California para conquistar paixões e surtei quando aprendi a tocar a mesma Under the Bridge no violão.

Existem tantas outras músicas, meu Deus! Blood Sugar Sex Magic nas noites repletas de mulheres, One Hot Minute nos bares da vida, Tearjerker nas viagens onde pular estados era obrigação, Breaking the Girl nas indiretas cotidianas e ela, a rainha das canções de rock, a precisão inesquecível da guitarra, o nirvana das cordas do baixo com as batidas da bateria no solo estridente de Soul To Squeeze.

Daquela primeira nota de Can’t Stop, em uma tarde nublada de Peruíbe até o último acorde de Give It Away, eu estive deitado nos braços de qualquer coisa que se chamasse Red Hot Chili Peppers. Dormindo nos acordes, nos falsetes, nas batucadas, nos riffs, nos dedilhados, e acordei na uma hora e quarenta e três minutos de realidade do show de sábado, no Rio de Janeiro. Talvez seja tempo suficiente para contar a história de uma vida inteira.

23 de agosto de 2035

Publicado agosto 23, 2011 por Vinícius Mendes
Categorias: Vinícius Mendes

Eduardo Vasconcelos

Rua Augusta, s/ nº, São Paulo/SP

Logo que o dia nasce – quente, cada vez mais – um entregador da Fedex toca a campainha. A cortesia vem de Santiago. É um novo aparelho que eu ainda não aprendi a pronunciar o nome e que contém o mais novo livro (não no sentido físico, mas se conservou como expressão) do jornalista Vinícius Mendes, meu velho amigo. Hoje é aniversário dele, mas sou eu quem recebe o presente “pelas inúmeras contribuições feitas à Previdência Social de Arimandía durante a ‘formação’ de seu Estado”. Menos poético, mas ainda em outro mundo.

Cinco minutos depois, o telefone toca. É uma ligação de La Paz. “Vou entrar no ar agora. Não perca!” Ele diz isso antes mesmo de eu lhe dar os parabéns. O correspondente internacional na América do Sul locomove-se de uma cidade a outra por semana. A entrada ao vivo era para cobrir a posse do novo governo boliviano, que ele veladamente apoiou em suas reportagens. Atualmente, está no seu 12º emprego. Sempre em grandes redações.

Cerca de dez minutos após sair do ar, me liga de volta, falando como um estagiário que fez a sua primeira entrevista jornalística. “Nossa! Que foda esse momento! Caramba! É inacreditável!”, comemora o “estagiário” com quase 30 anos de profissão. “E você, tudo bem? Tenho um amigo aqui, combinamos de sair com umas bolivianas”, me diz antes de desligar o celular, que é do câmera.

Assim como eu, não casou. Ficou em dúvida por qual mulher amava, então se decidiu pela América, “a verdadeira Isabela”. Desde o fim do romance com a primeira Isabela, quem ele não vê mais desde 2018, quando foi cobrir a Copa do Mundo, na Rússia, amou muitas mulheres. A maioria, aliás, por um ou dois meses.

É pai de um garoto que tem a idade de quando nos conhecemos. A relação entre eles, porém, é distante. O menino vive falando em sociedade igualitária, enquanto ele, que criticava o pai capitalista, investiu na Bolsa de Valores e publicou artigos criticando a postura do Brasil ao ajudar os Estados Unidos a se livrarem da décima crise financeira do século XXI. “Esses aí tem que comer na nossa mão!”, era o título de um de seus textos.

O livro que me enviou se chama “Diário de um undernista – reportagens de um coração arranhado”. É uma ficção baseada em fatos reais. Conta a história de um jovem repórter que, quando não sentia o êxtase da vida jornalística, se enamorava de paixões repentinas. Porém, até hoje estou esperando que termine “Arimandía, uma terra no coração dos homens”, prometido desde o longínquo terceiro título da Libertadores da América conquistado pelo Sport Club Corinthians Paulista, em 2019. Acho que estamos quites: na ocasião, ele prometeu o livro, e eu, que iria casar.

Não só de Isabela, a original, mas de todos os amigos da juventude não temos mais notícias. Conforme os anos passaram, os vínculos diminuíram. As novas gerações quase não sabem o que significa criar vínculos. Como diria um de nossos mais admiráveis professores de jornalismo, o consumismo venceu.

Mais tarde, depois da prazerosa leitura dos primeiros capítulos do “Diário de um undernista”, abro o meu e-mail. Ao passar da idade, a vida nos surpreende cada vez menos. Em meio a mensagens de lojas ofertando produtos, só há um nome reconhecível na caixa de entrada. “Blzzz???”, é o assunto do e-mail. “Vou passar o fds no Brasil. Vamos fazer alguma coisa??? Abraço!”. Assinatura: Vinícius Mendes, poeta.

Quem mais poderia ser?

Experiência entre extremos

Publicado agosto 21, 2011 por Vinícius Mendes
Categorias: Vinícius Mendes

Rafaella Facio

Permitam que o meu lápis deslize sobre esta folha, e eu lhes contarei uma história – ou divagarei sobre o autor dela.  É sobre alguém que convive com as leis dos homens que governam as pessoas, que por sua vez, são governadas pelas leis da física. Sobre um poeta, mais conhecido como fragmento-de-carbono-com-polegares-opositores.

Permitam que vossos olhos percebam, neste tal, os sacrifícios diários que ele faz para curar a si mesmo e aos que o cercam. Rituais de gente fina, gente boa. Mas que não lhes escape o detalhe de que, apesar de estar eventualmente deprimido no mau, ele jamais se exaltaria no bem.

Mas quando estiverem testemunhando as ofertas de Vinicius Mendes, não deixem de perceber suas exigências, suas condições. Ele recusaria adaptar-se à vida se Gabriel García Márquez não tivesse escrito o “realismo fantástico”; se os dedos de Flea não embalassem o funk; se a utopia não tivesse suspirado em Sierra Maestra; se o Corinthians não fosse o “Timão” e se – por último, mas não menos importante – as baratas bolivianas não contassem com trinta e duas pernas.

Sabe que nada é certo ou errado por natureza. Não vai tomar como bem supremo qualquer honraria, prazeres, inteligência ou até mesmo a felicidade. Vai viver intensamente o primeiro acaso que conquistar sua atenção. E abrirá mão até mesmo de si para cumprir com seus caprichos cotidianos e para extrair a mais profunda percepção de cada experiência.

E ainda que os continentes se reunissem em Pangeia para extinguir o Oceano Atlântico; que Pitágoras não tivesse descoberto as notas musicais da escala ocidental e que os humanos não tivessem inventado o amor, e continuassem se unindo por necessidade de reprodução da espécie, Vinícius Mendes continuaria sendo… Um fragmento-de-carbono-com-polegares-opositores, mais conhecido como poeta.

O fascinante lugar em que todas as mulheres chamam-se Isabela

Publicado agosto 17, 2011 por Vinícius Mendes
Categorias: Vinícius Mendes

Marcelo Martins

Vinícius Mendes vive em dois mundos. O primeiro é este nosso mesmo. Um mundo que, convenhamos, não facilita a vida dos visionários e poetas. Pelo contrário. O noticiário cheio de guerras, mazelas e injustiças é um constante desafio para quem quer enxergar algo de belo no mundo. Construir sonetos, mesmo pobres, é um tremendo desafio. É preciso escavar as palavras e depois, feito um estivador, erguer uma rima. É  por isso que Vini, como os amigos o chamam, descobriu um novo mundo. Chama-se Arimandía.

Ninguém sabe direito o tamanho deste mundo. Há quem diga que é do tamanho de dois continentes, outros relatos dão conta que ele é uma ilha menor que Cuba. Na verdade, este é um detalhe desimportante. O lugar é tão fascinante e extraordinário que ninguém teve nem tempo de fazer mapa. E nem adiantaria. A fronteira, brincalhona não respeita os tratados internacionais. É muito difícil estudar geografia em Arimandía.

Se os geográfos não tem vida fácil, o mesmo não pode ser dito dos cronistas. Todo mundo é cronista. E poeta. Na praça central, uma estátua de Gabriel Garcia Marquez em tamanho natural observa e enfeitiça os seus moradores. É bom que se diga que os pássaros em Arimandía não se atrevem a fazer as suas necessidades na bela construção de bronze. Eles nem cagam, pra dizer a verdade. Apenas cantam. O repertório das aves vai de Tom Jobim a Red Hot Chili Peppers. É famosa a espécie de canário, da família dos Undernistas, que é especializado em cantar Under the Bridge. Espetáculo deslumbrante.

Voltando aos cronistas e poetas. Em Arimandía o que move a economia é a poesia. Pode parecer meio maluco, mas deixa eu explicar. Neste mundo não existe dinheiro. Todas as transações comerciais são feitas com poemas e crônicas. Exemplo: uma bala custa um funk carioca, daqueles bem podreira mesmo. Rima pobre e sem valor. Uma mansão pode variar entre 500 poesias drummondianas a 1000 linhas à moda de Cem Anos de Solidão. É preciso muito tempo para juntar tanta bagagem literária. Trabalho de uma vida inteira. A balança comercial também move-se com poemas que é, como não poderia deixar de ser, o principal item de importação e exportação dos arimandíanos.

Com tamanha dedicação às rimas, como fica a política? Ela existe? Claro que sim! E o presidente foi eleito por aclamação popular. Seu nome: Ernesto Che Guevara. Sim, o próprio. Você acha que ele morreu, né? Está vivo e mais saudável que muitos dos seus compatriotas ideológicos do nosso mundo… Um dia ele foi encontrado semeando a revolução por Arimandía. Foi então convidado – melhor dizendo, intimado -, a cuidar das questões políticas. Che relutou um pouco. Achava que era muita responsabilidade, mas, para felicidade geral da nação, ele topou. O único problema é que, de vez em quando, ele simplesmente desaparece sem dar explicação. E nem precisa. Todo mundo sabe que ele está buscando, incansável, a revolução além da fronteira. O bacana é que Che Guevara sempre volta…

Agora, com licença, preciso falar do aspecto que mais me encanta nesta terra: as mulheres. Primeiro, elas são a maioria da população. Para cada cueca fedorenta, são umas dez damas. São tão lindas que fazem as mulheres do sul do Brasil parecerem feias. São poetisas e musas ao mesmo tempo. Os homens, coitados, perdem-se nesse paraíso: não sabem direito para quem fizeram determinado poema, que acaba virando um poema universal. Em Arimandía, quando um romance acaba todo mundo sabe. As lágrimas viram poesia. Curiosidade: todas as mulheres chamam-se Isabela, mesmo aquelas que, na maternidade, ganharam outros nomes. Não importa. A lei de Arimandía é implacável e chama todas de Isabela.

Ninguém vai se incomodar com uma bobagem dessas, certo?

Eu poderia falar muito mais de Arimandía. Mas eu prefiro encerrar por aqui. As linhas acima, coitadas, não conseguem dar conta de tudo que existe nesse mundo. São frágeis e, temo dizer, mentirosas. Para muitos podem parecer exageradas, mas são precárias em tentar descrever o paraíso. Não conseguem. Nessa altura do texto, o amável leitor deve estar querendo saber onde fica Arimandía, né? Sinto informar, mas não existe voos regulares para lá. As agências de turismo não vendem pacotes. Aos mortais, como eu e você, leitor, só resta espiar por uma pequena fresta deste mundo: o Mundo de um Visionário.


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