Eram dois.
Em Arimandía, onde tudo cheirava o odor fresco do amor, não havia nenhuma criatura que não os conhecesse. Não muito pelas fotos espalhadas pelas capitais nem pelas manchetes cotidianas e muito menos pelo ritual diário de abertura de janelas do grande casarão onde viviam para liberar o cheiro forte que fluía dos tapetes e móveis acolchoados. A fama era fruto de um brilho não identificado que saía dos olhos de Renata Remédios, princesa de Arimandía desde o último inverno. A graça de seu caminhar, a beleza de seus pés e o patrimônio estético que era o seu sorriso fazia com que o país acordasse todos os dias mais feliz. O que mais atraía as atenções públicas, no entanto, era a necessidade da presença física. Poucas vezes se viu Renata Remédios perambulando sozinha por estes pedregulhos nacionais com seu tradicional rosto de felicidade, e talvez seja inédito um sorriso seu fora dos limites dele. Ele também só aparecia de mãos vazias por aí quando a obrigação falava mais alto que o sentimento.
Eram dois.
Dois que se entrelaçavam em planos, noites e viagens. Renata Remédios, a estrela do relacionamento, percebia seu futuro em terras distantes da pequena Arimandía e com filhos devidamente matriculados em escolas tradicionais dos barões da educação, mas não imaginava nem os próximos cinco minutos sem a anuência dele. Ele, por sua vez, olhava o mar de águas turvas que jorrava do tempo que tinha pela frente e observava revoluções esquisitas, visitas inapropriadas e cinco empregos informais, mas não pensava em viver nada destas coisas se não fosse acordar todos com os dias com benção amorosa que saía da boca de Renata Remédios. Ela, popular Meme, era mais articulada que ele. Seus planos eram devidamente registrados no cartório do céu, suas percepções eram anotadas em cadernos que ela guardava nos fundos do palácio real e tudo o que lhe rodeava era o suficiente para um comentário alheio em uma noite de sábado numa cama improvisada no chão. Ele era quase um clandestino. Torrava o ouro que gotejava do solo arimandiano com compras inúteis que só serviam para o seu prazer e tinha algumas opiniões estranhas: preferia sal a açucar e era muito mais feliz debaixo de uma coberta do que nos ventos frios das ruas.
Eram dois.
Mas em Arimandía, terra onde cada ser humano tem o direito a novos sentimentos no tempo que achar por bem, eles eram quase uma população. As mulheres se vestiam como Renata Remédios pelas calles apenas pelo desejo se ser como ela. Dessa forma, sua tradicional jaqueta preta com detalhes de pêlo de carneiro nas golas era copiada a exaustão, seu sapato de salto altíssimo com fivelas nos tornozelos era uma moda eterna e seus vestidos de renda eram quase uma unanimidade nacional. Ele não mantinha tendências fortes no povo, exceto o gosto pela leitura e o amor pela América do Sul. O sorriso dela, com as medidas das covinhas e o alinhamento dos dentes, era uma obrigação entre essas mulheres magras que trabalham com a beleza. Seus olhos (ora grandes, ora pequenos) era um mistério tão profundo que inundava de dúvidas até mesmo os velhos videntes que restavam no alto das coisas.
Eram dois.
E o número dois se tornou tão importante por causa disso, que o governo não demorou para criar o dia nacional do número dois, em homenagem a Renata Remédios e ele. O cheiro forte do amor que saía do casarão onde viviam (e que como já foi dito neste relato, servia de ritual todas as manhãs) atravessava a avenida principal, virava umas três ruas à esquerda e uma última a direita até atingir a maior praça de Arimandía, a “Plaza Cariñito”, onde todos os dias surgiam novas criaturas dispostas a formar o número dois. Ali, diariamente, formavam-se amores, paixões e desejos carnais que eram satisfeitos em quartos não-remunerados nos prédios ao redor. Glória maior era ser batizada como Renata, não necessariamente Remédios, que era um sobrenome típico de Macondo. As adolescentes grávidas escreviam R-E-N-A-T-A em suas barrigas e saíam pelas ruas como vencedoras, as mães maduras que haviam tido a brilhante ideia de “renatiar” suas filhas antes do advento da princesa, em 2011, eram tão felizes que imitavam o ritual de abertura das janelas de suas casas apenas para liberar o cheiro de alegria que impregnava nas roupas, e as avós que se chamavam Renata ganhavam netas e bisnetas e tataranetas com o mesmo nome debaixo do argumento que, se a anciã da casa podia ter tal misericórdia, todas as mulheres da casa também podiam ter. Foi tanto que, em uma última pesquisa, se constatou que havia mais Renatas em Arimandía do que espécies de aves no mundo inteiro. Eram Renatas Marias, Renatas Antônias, Marias Renatas, Renatas das Graças e outras milhares e milhões de formas de batizar várias pessoas com o nome de uma só.
Eram dois.
E mesmos nos poucos conflitos, eram dois. Renata Remédios não suportava os esquecimentos, alguns pensamentos e todos os outros mentos negativos dele. Ele não tinha vida quando ela usava suas grosserias contra ele. As maiores brigas, no entanto, eram nos períodos em que estavam longe. Ele, quase sempre mergulhado em papéis jornalísticos, telefonemas e uma máquina que lhe obedecia as ordens com toques coordenados, admitia, em dias ímpares, sua ausência semanal. Ela sempre tinha alguma reclamação anotada para fazer, fosse uma palavra mal falada, um olhar mal olhado ou um ato não feito. Mas se esquecia de reclamar sempre que o via esperando-a nos cantos mais distintos de sua existência. Então, bastava um encontro para que todas as indiferenças se transformassem em um beijo absurdamente mais amoroso que o último que havia sido dado.
E então, eram dois.
Mas, quando lhe espiavam pelas frestas da vida, já não se via dois.
Ali, já eram apenas um.








