Marcelinho Carioca, um eterno corintiano

Posted Dezembro 2, 2009 by Vinícius Mendes
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            ”O texto abaixo foi escrito para o site da Federação Paulista de Futebol. Entrevistei o Marcelinho Carioca na loja “Todo Poderoso Timão” do Shopping Metrô Santa Cruz, no dia 1° de dezembro, em uma noite de autógrafos. Ele falou sobre Libertadores, seu jogo inesquecível, Ronaldo e claro, Corinthians”.      

               A torcida do Corinthians não esquece dele. E não é para menos, em oito anos vestindo a camisa do clube marcou 206 gols em 427 jogos, incluindo alguns tentos inesquecíveis, como o da final da Copa do Brasil de 1995, contra o Grêmio no Estádio Olímpico e o histórico gol de placa marcado contra o Santos, na Vila Belmiro, quando passou a bola por cima do zagueiro Ronaldo Marconatto e chutou de primeira no canto direito do goleiro santista, que lhe rendeu até uma placa do rei Pelé. Marcelo Pereira Surcin, conhecido como Marcelinho Carioca, é reverenciado até hoje pela torcida corintiana como um dos maiores ídolos da história do time.

               Com uma carreira feita de altos e baixos, Marcelinho nunca escondeu seu amor pelo Corinthians. Já afirmou que a camisa do clube é a sua segunda pele e em todas as partidas que joga contra a equipe paulista, acaba indo para os braços da torcida. Apesar de tamanha identificação, o meio-campista admite que na infância não era corintiano. “Quando eu era criança não torcia para o Corinthians. Quando vim jogar em São Paulo assumi essa responsabilidade, principalmente pela forma como me trataram aqui e pelo carinho da torcida. A torcida corintiana é a grande responsável pela identificação tão grande que tive com o Corinthians”. Torcida esta que viu o jogador ter seu nome vinculado a alguns dos maiores títulos da história do clube, como os Campeonatos Brasileiros de 1998 e 1999, a Copa do Brasil de 1995 e o inédito Campeonato Mundial da FIFA, em 2000, que para Marcelinho, foi o maior título que conquistou em sua carreira. “A Copa do Brasil de 1995 teve um sabor especial, com aquele gol na final no Olímpico e por ser o primeiro título da Copa do Brasil do Corinthians, mas ganhar o Mundial foi maravilhoso, inesquecível. Com certeza foi o maior título da minha carreira de jogador de futebol”.

  

 

 

Marcelinho em campo, pelo Campeonato Brasileiro de 1998

            Marcelinho Carioca chegou ao Corinthians em 1994, do Flamengo/RJ, onde havia sido campeão brasileiro dois anos antes. Ficou no clube até 1997 quando foi vendido ao Valência (ESP). Sem conseguir se adaptar ao futebol espanhol e na reserva do time, Marcelinho teve seu passe comprado pela Federação Paulista de Futebol, onde foi criado um telefone para a torcida escolher em qual equipe o jogador disputaria o Campeonato Paulista daquele mesmo ano. Com 60,7% de votações, a torcida corintiana colocou Marcelinho novamente no Corinthians. De 1997 até 2001, o meio-campista se consagrou com a camisa 7 do clube. Conquistou quatro títulos paulistas, dois campeonatos brasileiros e um mundial de clubes. “Em 1997 foi muito bom o retorno ao clube nos braços da fiel torcida, mas acho que me tornei um ídolo mesmo em 1995, depois do título da Copa do Brasil. O Corinthians não havia ganhado aquele campeonato ainda e a torcida cobrava de nós um título de maior expressão. Até as circunstâncias foram bem ao estilo corintiano. Aquele jogo contra o Grêmio colocou definitivamente meu nome na história do clube”.

               Em 2001, Marcelinho deixou o time após uma briga com o companheiro de clube Ricardinho. Voltou ao Corinthians em 2006, depois de defender o Santos, Vasco e diversos clubes do futebol brasileiro e mundial e até de anunciar a aposentadoria. Jogou poucas partidas e após outra briga, desta vez com o volante Mascherano, deixou novamente a equipe para trabalhar na televisão. “Eu já estava trabalhando como comentarista e recebi uma proposta para jogar no Santo André. Era um projeto sério, forte, que tinha como missão colocar o time em posição de destaque, e eu aceitei prontamente. É um clube bastante estruturado e que tem uma forma de administração moderna, por ser uma empresa também”, analisa Marcelinho, que atualmente é um dos grandes do Santo André no Campeonato Brasileiro.

                  Entre tantas partidas, algumas são especiais para o ídolo. “O jogo mais marcante que joguei pelo Corinthians foi contra o Vasco, no Maracanã, na final do Mundial [de Clubes de 2000]. Mas tem outras duas partidas que eu nunca me esqueço: o meu primeiro gol contra o Palmeiras, no Pacaembú, onde eu acertei um chute de longe e marquei um golaço e aquele jogo contra o Santos, que eu dei um chapéu no zagueiro e bati de primeira”, relembra. Mas nem só de momentos alegres viveu Marcelinho no Corinthians. Carrega consigo alguns dramas, como a derrota para o Palmeiras na Libertadores 1999, quando perdeu o pênalti que daria a classificação ao time corintiano para a final da competição continental. “É um momento marcante também, onde não fui feliz. Acho que vou carregar isso comigo sempre também”.

                Atualmente no Santo André, Marcelinho afirma que está conversando com a diretoria do Corinthians para a realização de uma partida no Pacaembú, onde se despedirá do futebol. “Ano que vem vou me despedir em grande estilo, com a camisa do Corinthians e jogando para a torcida. Estou conversando com o clube e até agora está tudo caminhando para isso acontecer mesmo”, afirma empolgado. Se não conseguiu conquistar a Libertadores, maior obcessão do clube e da torcida, Marcelinho acredita que o time atual tem grande chance de levantar a taça internacional. “Estão montando um time forte e é isso que tem que ser feito. O Ronaldo foi uma contratação sensacional, tanto dentro como fora de campo e tenho certeza que ele vai levar essa equipe ao título da Libertadores”. Mas apesar dos elogios ao elenco de 2009, outra formação é considerada a melhor para o meio-campista. “Por todos os títulos, a maneira como jogava, a força que tinha e a união que havia entre os jogadores, acho que o elenco de 2000 foi o melhor de todos os tempos do Corinthians. E eu me sinto muito feliz por ter feito parte dele”, comenta.

                Nesta semana, o ex-camisa 7 do clube levou 200 torcedores ao lançamento de uma loja do time em um shopping de São Paulo. Muitos pediam o retorno do ídolo para a disputa do torneio internacional em 2010, mas ele mesmo tratou de desiludir os torcedores. “Não vou jogar mais no Corinthians. Vou disputar o Campeonato Paulista pelo Santo André, depois pretendo fazer meu jogo de despedida no Pacaembú e encerrar a carreira”, finaliza Marcelinho, que traz saudades até hoje à torcida corintiana.

Matéria editada no site da Federação Paulista de Futebol: http://www.futebolpaulista.com.br/info_texto.php?cod=32910

2009, um ano de altos e baixos

Posted Novembro 27, 2009 by Vinícius Mendes
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               Daqui a alguns dias terminaremos mais um ano. Carlos Drummond de Andrade dizia em um de seus poemas que o indivíduo que separou o tempo em fatias foi genial. Concordo plenamente com o colega, pois em cada início de uma nova fatia se renova as esperanças, se recria as perpectivas quanto a vida e ao mundo, se refaz os objetivos do ser humano. 2009 foi uma fatia especial, pelo menos para mim. Conheci o céu e seus limites, voei como em um poema sonhado e também estive jogado, ensanguentado em uma calçada incolor onde meu corpo não era sequer notado.
  

  

Jenny, Isabela, Mike, Ariel e eu

           Este foi o ano em que escrevi dois livros, e nenhum deles voltou para minhas mãos. Poemas foram jogados ao vento na expectativa de trazer algum amor inventado, escrever uma história digna de ouvintes, buscar a realidade dentro dos sonhos por onde eu perambulava. Este foi o ano em que me apaixonei, e por várias vezes chorei lágrimas de ouro por ver meu amor correspondido, por ouvir as músicas que embalavam meus caminhos românticos em noites iluminadas, e que as paixões me trouxeram almas de estrada, feriados inesquecíveis, sábados crônicos em parques singelos. Este foi o ano em que me perdi dentro de minhas limitações, e que sempre me vi derrotado pelas minhas próprias ações ou pela falta delas, correndo de lembranças de concreto que insistem em decorar a multidão de prédios que me vigia. Este foi o ano em que conheci criaturas magníficas, que pingam sentimentos honestos no mar profano que nadamos todos os dias, Mike, Pedro e outros antônimos que permanecem vagando por aí. 

Moema, Queijo e eu em algum lugar de Curitiba

               Este foi o ano em que experimentei sensações diferentes, como o vento que bate no rosto vindo das rodovias do sul. Sinto saudades das largas avenidas de Curitiba onde desfilei meus versos com duas incríveis pessoas de minha biografia acadêmica, Queijo e Moema. Me entorto ao lembrar das loucuras vindas dos cartões-postais de Joinville, as famílias desprovidas de maldade, a garoa fina que cai todas as manhãs nas janelas catarinenses e as aventuras que inventei junto com Genja, eleito companheiro de viagem para a vida toda. Em Ilhabela descobrimos que os homens não vivem no mesmo mundo que o nosso. Enquanto penduravam barracas contando piadas tolas, entrávamos no mar sem ondas debaixo de uma chuva litorânea.

   

Cláudia

             Mas se é para falar de nomes, não posso deixar de citar duas estátuas de minhas praças: Cláudia e Isabela. Protagonistas de crônicas, modelos de poemas, personagens de histórias, de invenções, de choros em cima de pontes, de frases poéticas, de sorrisos dos rostos que liam as perfeitas ironias que o destino escrevia entre os dois maiores amores da minha vida. Entrei no ano esperando por Cláudia, procurando desvendar seus mistérios, perdendo noites em cima de seus prazeres, convencendo-a de que a vida não se limita a passeios pelas árvores do bairro. Não tive sucesso em meus poemas claudianos, e me despedi de seus cachos em um fim de tarde chuvoso. Chuva aliás, é o melhor relato do aparecimento de Isabela em minhas páginas. Surgiu como uma precipitação das nuvens, como a garoa que surpreende as tardes de sol, e sem perceber estava molhado pelas seus olhares castanhos.

Isabela

Isabela foi a mulher que mais amei na minha pequena vida. Nosso amor durou pouco tempo, não o suficiente para que aumentássemos os nossos limites. Nunca fui a sua cidade, nunca conheci sua família, nunca soube quem eram aquelas pessoas que tanto me falava naquelas noites de conversa, nunca soube suas preferências literárias, musicais e intelectuais. Mas nos amávamos, não tenho dúvida disso. Talvez o mundo não tenha sido conivente com nossa história, talvez os acontecimentos exteriores tenham sido contra nossos destinos cruzados ou qualquer outro talvez que eu não saiba. Não sei por onde anda Isabela, o que acontece com ela e nem onde ela está neste exato momento.
              Devo citar o cotidiano terreno também. Em 2009 tive três empregos, dos quais ganhei dinheiro, amizades e maturidade corporativa. Vendi cartões de crédito com mulheres gritando incentivos nas minhas costas, depois virei consultor comercial, até com email assinado e estou terminando o ano como queria, escrevendo matérias. Finalmente posso dizer que sou um jornalista, mesmo que em fase de gnoticismo. Há pouco tempo descobri os primeiros acordes do violão, e já arranho algumas poucas canções e também aprendi que dirigir um carro é tão simples quando aprender a andar.
               Peço desculpa aos capítulos esquecidos, muitos dos quais também foram inesquecíveis, mas se colocar todos aqui ninguém terá vã paciência de ler. Cada crônica deste blog, porém, é um fragmento de tudo o que passei, tudo o que vivi, tudo o que realizei, conquistei ou que simplesmente planejei mais não consegui alcançar. Mas posso dizer que 2009 foi um ano especial, onde estive em outro nível de sobrevivência. Agradeço a todos vocês, Mike, Pedro, Genja, Queijo, Moema, Cláudia, Isabela, Ariel, Jenny, Cami, Andy Maes, Vivi Rocha, Flávio, Guria e tantas outras bocas, olhos e vidas que contribuíram para essa crônica acontecer.
               Neste final de ano não tenho o que comemorar, nem o que lamentar, apenas continuar sobrevivendo. Feliz Natal e um 2010 promissor.

               Todo o amor que há nesta vida para vocês!

Um videocassete no mundo dos DVDs

Posted Novembro 17, 2009 by Vinícius Mendes
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                  Tudo o que acontecia na sua vida era relatado em um diário invisível. As lembranças mais sinceras, os momentos mais felizes, os filmes mais emocionantes ou as séries mais horripilantes pelas quais enfrentou sempre viravam parte de uma história doméstica. Entre as páginas mais alegres, destaca-se o dia em que foi escolhido entre milhares de seres da mesma espécie em uma loja para enfeitar a estante de uma família humilde, ou a noite em que varou acordado ouvindo o violão de David Gilmour ser fundo musical para uns de seus donos. Seus ápices de felicidade, no entanto, era quando alguém tinha a ideia de ir a locadora, ou de rever aquelas imagens antigas que ficavam guardadas em uma gaveta abaixo de seus pés. Era especialista em memorizar datas e horários. Sempre ficava atento quando a família se reunia toda em sua frente para participar de algum discurso ensaiado ou rir da vergonha de algum tio em frente aquela máquina que fabricava imagens. O cuidado com ele também o fazia se sentir um dos poucos eletroeletrônicos da casa. Todas as manhãs era polido com um líquido branco e um paninho sujo, que servia para limpar os outros aparelhos da casa. 
               Mas o tempo passa da mesma maneira, até para objetos de zonas francas. Seus primeiros dias naquela residência eram excelentes, e também não passaram despercebidos no seu diário. Ainda jovem, era mostrado para as vizinhas como o destaque da sala de estar, os meninos da rua largavam a bola e as pipas para se amontoarem em frente ao seu console, sempre sorridentes e os velhos, sempre com copos de cerveja na mão, se encostavam no sofá para assistirem alguma partida de futebol gravada, em algum ano que seus cabeçotes não conseguiam identificar. Depois perdeu um pouco do seu prestígio para um aparelho de som, que trazia uma bandeja para três CDs e logo em seguida para um videogame.
              A barba começou a crescer, a sujeira se acumulou em cima de seu console, e a única utilidade dele era o relógio digital que iluminava a sala quando desligavam a luz. O abandono então, foi questão do aparecimento de alguma novidade. E ela veio em uma tarde de sábado. A família chegou empolgada, rindo uns com os outros e segurando uma caixa na mão, com um cuidado só visto quando ele chegara até aquela casa. Colocaram-a no sofá e começaram a ler manuais brancos, bem impressos, direrente do seu que só servia a um inglês pobre. Tentava ver o que sairía de dentro daquele isopor, mas os meninos ficavam na frente, pulsando euforia com alguns CDs na mão. O pai, com um tradicional bigode e um copo na mão olhou para ele, com um ar de modernidade e fez apenas um comentário inoportuno.
                    - É, o mundo sempre se reinventa!
                   Uma lágrima de óleo Singer caiu de seus botões.
                   Desmaiou. Quando voltou a si estava no chão, junto a outros papéis chorosos e alguns livros que ficavam ao seu lado. Um brilho vindo de cima ofuscava seu vidro, e quando olhou para o alto, contemplou um outro objeto no lugar que foi seu por cinco anos: um DVD. Um aparelho jovem, robusto, moderno, rápido, vistoso e que além do relógio digital mostrava a data e o dia da semana.
                   Foi guardado no porão, junto aos senhores de barba branca e histórias longas, como a televisão veterana da inauguração de 1951, ou o rádio que estava no Maracanã quando o Brasil perdeu para o Uruguai na primeira Copa do Mundo, ou o mais recente videogame, conhecido como Megadrive, e empoeirava em uma prateleira no alto. Alguns outros estavam apenas em peças, mas suas almas já não estavam mais ali, como o relógio de ponteiro, que se matou de depressão.
                    - Não aguentou a passagem do tempo! Disse um tanquinho velho, que tomava conta do lugar.
                    Os dias passaram e ele se contentou com a dureza do abandono. Escrevia frequentemente em seu diário, sobre seus dias embaixo da escada suja do porão. Passou a jogar truco com a televisão, que sempre contava as histórias abundantes dos bastidores e com o liquidificador mentiroso, que insistia em dizer que já tinha visitado Tóquio, contrariado pelos demais que sempre afirmavam que ele não tinha passado de Manaus. E em uma noite fria, ele acordou assustado com um dos meninos mexendo entre os aparelhos. Depois subiu correndo e apagou a luz. Todos observavam, e apenas ouviam um choro silencioso, que saía de dentro de uma gaveta. Quando o dia amanheceu, o rádio, que governava o ambiente, resolveu ir saber o que acontecia. Abriu a gaveta e se deparou com o DVD, sujo e empoeirado e que resmungava algumas palavras.
                       - Eu sempre acreditei que o Windows dominaria o mundo! Dizia enquanto recolhia os restos de suas siglas pobres.
                    O último comentário no porão dá conta de que o senhor computador está sendo maltratado, e que o pai recentemente disse em um café da manhã que vai comprar um notebook, o que já faz o PC chorar pelos cantos.

A Ilha do Esquecimento

Posted Outubro 31, 2009 by Vinícius Mendes
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                 A dois mil quilômetros da costa da Malásia Ocidental existe um lugar inalterado.
                Ninguém sabe ao certo o caminho de suas nascentes nem sua localização exata, e por este motivo permanece perdido nas histórias de escritores latinos. Segundo esses homens visionários, há uma capital no centro do país chamada Rod, e que a única maneira de se chegar até a cidade é pegando um trem que parte todos os dias em qualquer horário que a consciência permitir da estação central dos pensamentos inoportunos. Apesar de tantas especificações, não se conhece um indivíduo sequer que tenha viajado pelo tal trem e nem os ferroviários urbanos admitem saber da existência da estrada de ferro. Há outras teses também sobre o país desconhecido, levantadas casualmente pelos poetas desiludidos que perambulam por ruas sujas recitando versos reflexivos, que eles próprios desmentem tudo em suas próprias poesias minutos depois.
                 Para não dizer que tudo o que vos conto aqui é lenda, descobri recentemente uma ideia verdadeira do lugar em um livro. As páginas amarelas diziam que trata-se de uma ilha dentro de um arquipélago de terras sentimentais situado no meio do mar asiático. Seus habitantes são felizes, hospitaleiros e festivos, além de possuirem uma caracterísitica sobrenatural: eles não tem memória. Caminham pelas ruas sem se lembrarem do caminho que fizeram no dia anterior, conhecem as mesmas pessoas todos os dias e a cada dia se impressionam com a mesma manchete de jornal. Mas o que mas me chamou a atenção foi o nome da nação: Ilha do Esquecimento.

Rod, capital da Ilha do Esquecimento

Rod, capital da Ilha do Esquecimento

A Ilha do Esquecimento está próxima a duas ilhas maiores, a Ilha da Loucura e a Ilha das Guitarras Estridentes. No meio desse pequeno arquipélago dentro de outro passa cinco mares diferentes, que se cruzam em pequenos canais para beberem das beiradas ideológicas das ilhas e suas virtudes, fazendo com que quando essas águas desemboquem novamente no grande oceano fiquem esquecidas na loucura de guitarras estridentes. Há também pontes que ligam as três ilhas, formando uma estrada de sentimentos misturados. Os moradores da Ilha das Guitarras Estridentes migram frequentemente para o sul, na região da Ilha da Loucura, onde adquirem conhecimento suficiente para fazerem sons loucos, enquanto os cidadãos da Ilha da Loucura vão até o norte em busca de aprendizagens musicais e ápices urbanos, conhecidos como new divides.
                A Ilha do Esquecimento em si é pouco visitada. Em uma conversa recente com um homem barbado que toca saxofone pelas ruas da Ilha das Guitarras, perguntei-lhe sobre sua visita à ilha esquecida:
                – Para falar a verdade não me lembro dessa minha viagem, senhor! Dizia o velho enquanto tirava notas agudas do instrumento.
                Rod, a capital, possui poucas fotos. Talvez por não se ter recordações na ilha, talvez pelas fotos serem esquecidas no tempo ou ainda por não ter o que fotografar, já que tudo é esquecido. O arquipélago é ainda formado por outras ilhas, todas com culturas, crenças e fenômenos poéticos próprios que definem as políticas adotadas. Li também que recentemente houve um golpe de estado na Ilha dos Sentimentos, cuja capital é Under the Faint. Militantes do Partido Undernista se rebelaram contra o governo interino do presidente Daniel Vidalocaya, levando o povo as ruas e forçando-o a renunciar. No seu lugar assumiu o ex-preso político/amoroso Mike Azevedo, e o país retomou sua tradicional democracia romântica.
                 Depois de informações suficientes fechei o livro. Coloquei-o de baixo do braço e sai caminhando tranquilamente, banhado pela magia das palavras latinas. Pensei em tudo o que gostaria de esquecer: meus amores não correspondidos, meus sonhos perdidos, meus versos fracos, minhas reclamações críticas do mundo, as pessoas que por algum motivo me ignoram e tantas outras inutilidades que acabariam em Rod. Mas não há como esquecer histórias e sentimentos quando eles estão guardadas na maior naçãodo mundo, a Ilha do Amor, cuja capital é uma metrópole engarrafada chamada Coração, a maior do arquipélago de ilhas sentimentais.
                E de ilhas em ilhas a vida é formada. Metrópoles literárias, capitais absurdamente românticas, esquinas apaixonadas, asfaltos de bossa nova e um mundo arrogante que esqueceu das ilhas fundadoras de sentimento em algum lugar esquecido dessa crônica.

Seis da tarde

Posted Outubro 25, 2009 by Vinícius Mendes
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                  Olhos fixos no governador do tempo. Sua democracia é confundida com a paciência dos que são obrigados a aceitar suas ordens, e pulsa tranquilamente na parede da sala. Faltam duas horas para as seis da tarde, horário convexo, confuso, nobre. Horário onde os amores saem pelas ruas a procura de abrigo, onde os olhares se cruzam em tiroteiros urbanos, onde os sentimentos perdidos se purificam e os puros se perdem. Horário onde medimos o nível de vida que levamos e o que ainda teremos que fazer para chegar ao ideal. A pressa grita nos ouvidos, o cansaço aperta o calcanhar sem piedade, o mundo vai perdendo a claridade do sol e ganhando o brilho solitário e simples da lua. São seis da tarde.

304645101_a2da97d925_o                   No meio de uma avenida humana, um poeta relata seus fins de dia em um papel amassado. Nesta mesma hora a dois anos atrás, estava dentro de um ônibus voador trocando confidências com um menino de nariz achatado, que era gago de nascença. Planejavam futuros espetaculares onde viajariam pelo país tocando seus instrumentos de notas quentes e conhecendo novos baianos. Tardes agradáveis de sonhos adolescentes que se tornaram apenas frases de biografia. O gago entrou no exército, casou e teve um filho gago. Cabe um verso como lembrança do companheiro, mas percebe que houveram muitos deles, e apenas pequenos versos não contariam as histórias completas. Observa as crianças espirrarem inocência naquelas ruas, e a própria infância passa em sua frente. Seis da tarde com os pés descalços, a camiseta suja de barro e a bola embaixo do braço correndo do síndico que ousara xingar com graça, ou os fins de noite em que ficava sentado mantendo diálogos pobres e analfabetos com os meninos da rua, que desde cedo já imaginavam mulheres nuas e cigarros gigantes, e quando o ponteiro saía do número seis era hora de voltar pra casa com medo da mãe, que já esperava com a cinta na porta.

            Por um momento o poeta aperta o papel com força. Lembra dos amores que passaram pelas suas dezoito horas. A moça singela, proletária da avenida principal, que ruivava alto quando o via pulsar sentimentos em parques paulistanos. Esperava ansiosamente pelas seis da tarde para tomar o primeiro sentido com destino ao seu amor cibernético, e dali criavam contos, ditados e músicas sobre a loucura sincera dos apaixonados. Tudo acabou seis meses depois em um seis da tarde quebrado pelo vento frio e pelo coração gelado daquela moça, que até hoje caminha por aí sem rumo. Neste mesmo horário inoportuno a pouco tempo atrás, estava se banhando em palavras bonitas, frases românticas que furavam até o concreto debaixo de seus pés, deixando-o suspenso no ar. O anoitecer era apenas um sinal de que seu amor interiorano estava abandonando as obrigações corporativas para atender a expectativa amorosa do relógio. Uma lágrima cai de seu rosto, rica em momentos perfeitos que foram filmados todos os dias, quando o ponteiro entrava rígido nos minutos amorosos e ficava totalmente erguido para baixo. Um olhar, uma confissão.

               – São seis da tarde, querida!

              Dali sai um poema que percorre as ruas, as mentes e finalmente o tempo. Volta em todos os arquivos do relógio, que continua caminhando como se nada estivesse acontecendo. Seis da tarde é hora de sair do emprego cansativo, de entrar na aula sociológica, de pertencer a massa de gente nas calçadas chuvosas, de encontrar o grande amor que espera no vão do Masp, de chorar pela perda daquela pessoa ou sorrir pela chegada dela. Seis da tarde é a hora da reflexão de ônibus, de ouvir Renato Russo dar seus conselhos soberanos sobre uma vida parecida, de atravessar a rua movimentada, complexa de pequenas sobrevivências que vão escrevendo um livro urbano todo dia. Seis da tarde é hora de ver a vida passar. E aquele poeta permanece afogado no mar de suas lembranças. Em cada braço há um relógio formal, que completa a roupa feminina ou embeleza o terno. Seis da tarde de um dia qualquer a um ano atrás estava sozinho num campo de bois, isolado dos prédios fuminantes da cidade e apenas ouvindo a música que as cigarras cantavam. O corpo varria o pasto e a mente varria o passado em busca de algum céu azul que figurou sua obra. Volta para a realidade quando, de súbito, uma mulher o alcança:

                  – Senhor, pode me dizer que horas são?

                   – Seis horas!

                  - Obrigado. Horário de rush é assim mesmo…

                   Horário de rush é assim, a vida passando, o mundo passando, as vidas passando como se fosse apenas um ponteiro do relógio. Depois de concluir aspirações inúteis, volta a caminhar pela calçada. Coloca todos os versos dentro do livro e o fecha, finalizando a sua crônica onde todas as seis horas que viveu cabem em uma volta do ponteiro menor, e antes de voltar ao mundo real observa a torre do Conjunto Nacional:

                    São seis da tarde!

Pedro, o contador de histórias

Posted Outubro 21, 2009 by Vinícius Mendes
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              O mundo caminhava lentamente durante o amanhecer. As pessoas respirando o primeiro estoque de ar, os prédios alinhados observando o rosto do sol, as plantas se espreguiçando pelos canteiros urbanos e Pedro aguardando o primeiro ônibus com destino ao serviço. Mochila nas costas, brilho nos olhos, um terno milimetricamente passado e algumas expressões de dúvida. Todos os dias seguíamos o mesmo destino, mas sequer conversávamos.

            O primeiro contato efetivo aconteceu em uma tarde fria que o cumprimentei por educação. As ruas trovejavam o trânsito paulistano que enfrentávamos calados, eu com meus livros latinos, ele com seu celular de contatos amorosos, e voltávamos para alguma sala de universidade ou sala doméstica que nos esperava. Via em Pedro um homem robusto, desses que pensam ser as engrenagens de um mundo qualquer, e acredito que o mesmo passava por sua cabeça em relação a mim.

            No primeiro dia da primeira conversa que tivemos no primeiro ônibus que chegou ao ponto, despejei minhas histórias amorosas tristes e pedi conselhos a ele. Pedro ouvia calado minhas insinuações, meus medos, minhas escolhas e minhas loucuras tão gratas, e me despedi dele aquele dia livre momentaneamente do peso das minhas costas.

            Assim viramos amigos. Assim viramos irmãos.

            Todos os damigos-121[1]ias íamos juntos ao nosso trajeto proletário, conversando sobre política, economia, literatura russa, mulheres de nossas vidas, crônicas quaisquer e outras inutilidades que os humanos criam. E aquela espera se tornou algo necessário no cotidiano dos dois. Eu esperava por Pedro para ir embora, ele me esperava para o almoço no refeitório da multidão, nós esperávamos pelo horário da libertação onde contaríamos sobre os anseios passageiros de mais um dia.

            Quatro meses depois eu pedi demissão da empresa onde dividíamos o mesmo teto empregativo. Assinei papéis, dei desculpas tolas e antes de pisar pela última vez naquele carpete azul fui conversar com Pedro. Contei-lhe sobre minha nova oportunidade de carreira, minha felicidade que Isabela continua esmagando e outras inutilidades que esta crônica descreve. Via lágrimas escondidas em seus olhos verdes, e realmente vi sinceridade quando me disse uma única frase:

            – Vou voltar a escrever. Você me motivou a isso!

            Saio daquela empresa para entrar na vida de Pedro, dizia Getúlio Vargas neste momento. Peguei pela última vez aquele ônibus e fiquei observar os tantos objetos que ouviram as minhas novecentas e sete histórias durante esses quatro meses de amizade com Pedro: os bancos do transporte, os ferros de proteção, o cobrador de bigode e os vidros fofoqueiros.

            Mesmo com pouco tempo, Pedro entrou no rol das grandes pessoas que carregarei na minha poesia. Seja por influência, seja por competência, seja por uma simples frase que ouvir. Porque a vida é feita desta maneira, vidas indo, vidas vindo, vidas ali, vidas aqui, vidas que vão e volta, vidas que não voltam e te esquecem, mas que são todas, vidas.

 

Movimento Undernista (1991 – 2009)

Posted Outubro 15, 2009 by Vinícius Mendes
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               Fábio amou por dois anos consecutivos uma garota de olhos negros. Era um sentimento adolescente e rude, que o acompanhava até nas orações de agradecimento a comida que estava na mesa e mesmo com de toda dedicação, nunca foi correspondido: seus olhares eram arremessados contra as grades das ruas, seus versos eram guardados em gavetas de esquecimentos e seus sorrisos eram abandonados em salas de juventudes, e perdeu a crença num reconhecimento. Da mesma maneira ingrata que Fábio, vivia Michelangelo. Amava intensamente uma moça de cabelos longos, que abusava do seu poder feminino para caminhar sobre as virtudes de seu sentimento. Nem suas manifestações loucas de amor nem seu nome artístico alterava o destino quadragular das caminhadas amorosas que tinha contra a sua vontade, onde se lembrava das duzentas e sete histórias que havia escrito com ela dois meses antes. Fábio e Michelangelo são adeptos fluentes do Movimento Undernista, uma corrente artística, político-social e humana do século XX, que tem como missão trazer a tona teorias vanguardistas sobre o amor e seu uso correto no mundo altamente oco de hoje em dia.
                  O Movimento Undernista foi fundado em 1989, por universitários brasileiros insatisfeitos com o peso dos sentimentos que levavam em seus corpos. Eram em sua maioria amores não correspondidos, histórias inacabadas, reconhecimentos esquecidos, créditos insuficientes e outras insatisfações públicas em busca do romantismo pregado nos livros. Tiveram importantes teses sobre a vida e suas vertentes, que eram discutidas em encontros inoportunos realizados nos corredores das universidades e amplamente divagados pelos cidadãos interessados em tais conhecimentos. Os undernistas, como são chamados, atuaram em diversos ramos da sociedade difundindo ideais, pensamentos e mensagens poéticas que permanecem até hoje na sobrevivência urbana das grandes metrópoles. No mundo, o movimento ganhou força principalmente nos EUA, com nomes como Axl Rose e Michael Jackson, tendo seu ápice em 1991, com a música Under the Bridge do Red Hot Chili Peppers, que é o hino do movimento undernista no mundo.
 

Cartaz undernista de 1995

Cartaz undernista de 1995

                  Porém, há algumas divergências quanto ao real início do undernismo. Alguns militantes mais antigos dizem que o fundador da corrente foi Elvis Presley, em uma apresentação em Nova York, em 1968, quando após cantar Love me Tender admitiu ter composto a música a um amor sem respostas. Outros mais nostálgicos insinuam que o movimento começou em 1957, com um violão desafinado que perambulava pelas ruas do Rio de Janeiro chorando lágrimas de acordes. E de todas as possibilidades, não há nada realmente concreto.
                  Atualmente, o Movimento Undernista perdeu espaço para outras correntes modernas. Dos nomes recentes que ainda vigoram no undernismo, podemos citar o poeta Vinícius Mendes e o jornalista Eduardo Vasconcelos. Na recente história dessas revoluções, surgiram outras formas de pensamento, entre elas a Vidaloucagem, que surgiu nos guetos africanos e o Oquismo, movimento contra qualquer tipo de sentimento e a favor da retirada dos corações humanos, que tem como líder o inglês John Frad. Das obras undernistas, podemos citar o livro “As Mãos do Mundo”, de Vinícius Mendes e a coluna de reflexão “Meus Medos e Defeitos”, de Eduardo Vasconcelos. Vale a pena citar também o livro “Nosso amor paulistano”. Uma história também escrita pelo poeta paulistano, que por algum motivo vital é raro, a ponto de não se encontrar edições a venda. Há trabalhos complementares sobre os pensamentos do undernismo, como a música Soul to Squeeze, do Red Hot Chili Peppers e Como Tudo Deve Ser, do Charlie Brown Júnior. No mais, a corrente se limita a emails combinados em horários de almoço para troca de níveis dolorosos.
                  Apesar destas coisas, é impossível afirmar que o Undernismo deixará de existir. Alguns filósofos chegam a afirmar que não existe data para estabelecer um início e nem um fim do movimento, e que sempre haverá algum ser no mundo capaz de sentí-lo. Mas na verdade eles sequer são formados em filosofia, são apenas apaixonados perdidos e sozinhos, que em outras palavras se tornaram undernistas.

A criação do mundo

Posted Outubro 14, 2009 by Vinícius Mendes
Categories: Vinícius Mendes

               Do alto do último céu existente estava Deus a imaginar como conceberia a humanidade. A Terra já girava silenciosa lá embaixo, o sol já estabelecia ordens aos corpos de seu governo, as estrelas se aqueciam enquanto esperavam os novos inquilinos do mundo, e faltava apenas a imaginação do supremo para iniciar a população daquele planeta azul. A concepção original veio então numa caminhada pelo pátio celestial: um pequeno anjo de caracóis loiros na cabeça, um par de bolinhas azuis no rosto que o permitia observar a sua volta e uma grande abertura singular que se movia, da onde saía um canto suave, deu a dimensão do que seria seu maior projeto. E num dia nublado, formou Deus o ser humano. Depois o colocou na Terra de uma maneira póstuma, deu-lhe ordens, mostrou-lhe as benfeitorias e lhe ensinou o serviço. Sentou-se em seu trono satisfeito com a obra de suas mãos e passou a observar o mundo, vendo-o completamente do alto de sua sala, como se fosse um galpão abandonado.

    adao            Dois dias depois se decepcionou. A inocência caiu junto com as poucas vestes e o ser humano se tornou mortal através das palavras de uma serpente mecânica. Depois vieram assassinatos, prostituição e outros crimes carnais que nem um dilúvio de quarenta dias conseguiu interromper. Deus assistia a tudo com desaprovação, e aquele galpão chamado mundo continuava rodando sem maiores pretensões. Enviou seu filho para aquele ambiente, afim de que todas as petições chegassem diretamente a ele, mas o viu crucificado em um dia que o sol se escondeu. E desde então, chora lágrimas ácidas que caem como chuva em nossas cabeças.

                Durante todo esse tempo, viu Deus diversas formas de organização brotarem nas paredes daquele galpão. Em um canto sujo um barbudo de túnicas pretas pregava a igualdade de uma maneira sociológica, enquanto alguns operários o ouviam radiantes. Outros começaram a desconfiar da existência de Deus e da criação do galpão, e passaram a perseguir os que criam no supremo, jogando animais em seus braços moles. Teve ainda alguns seres humanos que descobriram infinidades dentro daquele ambiente, fazendo cálculos e testes pelas janelas que ficavam abertas, e dali surgiu o tempo de pulso, a luz de botão e um papel que se trocava por todas essas coisas. Em uma área isolada, indivíduos de pele escura eram forçados a carregar caixas que levavam consigo o que homens de chicote chamavam de crescimento, mas que não passava de madeira bruta e oca.

                Quando Deus viu que um ser humano queria ser maior do que o outro, desejou destruir a raça humana, mas sua sabedoria lhe permitiu ver que ele mesmo se destruiria preso naquele galpão. A pregação do barbudo gerou revoluções de outros barbudos em diversos pontos, a perseguição aos credores do Criador permaneceu em um grau mais ideológico, as invenções continuaram sendo feitas com o único intuito de cada vez mais se arquivar os tais papéis de troca, deixando o ser humano prostrado perante sua própria ideia, e a escravidão à aqueles homens pretos foi abolida por uma mulher que dormia numa cama de bronze que beirava o teto. Deus chorou.

                E todas as vezes que chove no mundo os mares se movem, as árvores dançam tristemente, o céu perde a cor alegre, os animais se escondem em suas tocas, os rios se enchem bruscamente, os raios atingem os solos com ferocidade e a natureza mostra sua ira.

                Porque a chuva são as lágrimas de Deus, que da sua sala celestial olha para o mesmo galpão que construiu a tanto tempo atrás e não vê a inocência daquele anjo que deu a ideia do que seria o ser humano.

Sentimentos

Posted Outubro 3, 2009 by Vinícius Mendes
Categories: Vinícius Mendes

          

Uma pequena música para um grande sentimento…

             A mulher que eu mais amei nesta minha pequena vida casou ontem. Seus olhos castanhos iluminavam o tapete que haveria de passar, seus cabelos escorridos era a moldura perfeita para a pintura do seu rosto e seu sorriso fazia a boca dos outros desaparecer. Segurava um buquê de rosas tristes, que por algum motivo gritavam meu nome, mas não eram ouvidas. E antes de entrar na igreja, a mulher derramou uma lágrima.
             A nossa história é um tanto convexa: a conheci no balcão de um prédio qualquer, em um dia qualquer de minha vã lembrança. As poucas palavras que pronunciava caíam como gotas suaves no oceano de minha poesia, e me saciava com elas. Depois viramos meros amigos universitários, íamos a bares, contávamos casos amorosos e trocávamos papéis de letras inteligentes. Até um dia chuvoso em que a beijei subitamente e disse:
             - Eu quero tudo com você!
             Não sei quando, onde nem porque ela me ignorou em uma escada gelada cinco meses depois. Eu caçava motivos nas calçadas, procurava palavras que quebravam na sua boca e depois daquela noite na Avenida Paulista eu nunca mais a vi.
             Então tomei meu rumo. Pulei estados, estrangulei nações em fotos, derramei frases em ruas exóticas e me perdi em caleidoscópios noturnos. Porém, em todas minhas loucuras premeditadas eu lembro de um sorriso que ela me deu numa noite estrelada, em todos os lugares que vou lembro de suas duzentas e seis frases românticas, nossa música me persegue pelas esquinas alheias, seu nome é uma coincidência coletiva e sua voz está em todos os timbres que meu ouvido consegue captar.
             Resolvi dormir. Um teclado sincero batia os acordes de Jealous Guy enquanto caminhava livre por uma avenida de arrependimentos. Meu coração pulsou forte e quando olhei para o lado, estava ela, vestida de noiva e pronta pra entrar na igreja. A mulher que eu mais amei nesta minha pequena vida estava se casando.
               Tentei impedir de todas as maneiras poéticas existentes, mas a única lágrima que caiu de seu rosto me afogou.
                Então, resolvi acordar. Não havia John Lennon, nem a mulher nem meu amor de poeta, e vi a realidade brigar com a surrealidade em busca do poder.
                  A mulher não casou, eu não quero dormir, e meu amor…
                  Não quer acabar!

O amor nos tempos de cólera

Posted Setembro 26, 2009 by Vinícius Mendes
Categories: Vinícius Mendes

            Conheci o amor em um dia qualquer do mês de maio. Os dias eram fáceis de respirar, as noites eram pequenas para nossos desfiles, as avenidas eram frágeis diante dos nossos pés, e entrei em um mundo que desconhecia. Nesses tempos passei a ser um estudioso dos fenômenos que um sentimento causa nas vidas transviadas, usando minhas caminhadas apaixonadas como centro de pesquisa. Não obtive respostas, e apenas descobri que não há o que descobrir sobre o amor, e a melhor forma de compreendê-lo é apenas vivê-lo intensamente.

            O meu amor era do tipo inventado: o primeiro pensamento nas manhãs era a história da noite anterior, minhas ideias tinham como foco principal satisfazer o sorriso dela, meus versos eram líquidos que pingavam do meu coração e minhas maiores loucuras foram cometidas no mundo que havíamos criado para nós mesmos. Nosso planeta conspirava a nosso favor, de modo que bastava colocarmos os pés nas vielas iluminadas da cidade que os olhos se viraram para nosso brilho, que os corpos se entortavam para observar nossa graça e os canteiros urbanos ficavam cinzas longe das nossas mãos dadas. Confesso que fiquei levemente viciado, levando-me a uma abstinência espontânea que me sufocava por horas. Cada madrugada sem o som da sua voz desafinava meu coral, cada dia sem um parecer formal de sua presença destruía meus compromissos, cada momento que passava abraçado a seu calor sentia uma necessidade maior de um momento a mais, para construir um castelo de pequenos milésimos que formariam nosso próprio tempo.

            Mas meu amor se foi. Sem rumo, sem hora, sem direção. Se perdeu nas ruas do bairro que não conheci, de uma tempestade que não havia previsto na meteorologia do nosso mundo e que até agora procuro entender, mesmo sabendo que também não há o que entender. Fiquei recolhendo do chão as promessas feitas embaixo dos postes, tentando controlar as dez mil cenas que passam diariamente na minha cabeça das coisas que passamos e que, de tão perfeitas, formam um filme de tempo inestimável. Fiquei guardando as memórias, as cartas, os bilhetes de cinema, os poemas sem métrica, as mensagens eletrônicas, as fotos noturnas, a roupa que usei no dia do primeiro beijo e outras tantas pequenas coisas que mobiliavam a nossa história.

            E então cada um voltou para seu mundo. Eu regressei as minhas tardes de sopros de jazz, minhas horas de dedicação aos poemas, meus passos estridentes em mesas arrogantes, comendo, tomando ou ouvindo qualquer coisa inútil sobre o amor. Ela também voltou para seu universo. Os fins de semana na cidade das blusas de lã, os dias atolados de serviço sem uma perspectiva romântica depois das seis, as mensagens de meninos descompromissados solicitando compromissos e outras benfeitorias ou malfeitorias que desconheço ou não quero imaginar. Há de se dizer também da população que povoou nosso mundo: moças estudantes que vibravam com nossa união, meninos de barba iniciada, que debulhavam felicidade em nos ver juntos e até um cara oco, que descobriu um por cento do que é sentimento ao nos conhecer.

           Não sei se voltarei a vê-la. Não sei se voltarei a me ver. Não sei se existirá outro mês de maio tão frenético quanto o que brindou meu calendário. Também não sei se voltarei a ver o amor. A única que coisa que sei é que o amor é como o vento, que vai e volta e ninguém vê, mas todos o sentem.

            Hoje não vejo o amor, mas o sinto. E espero que um dia, ele volte.

Crônica inspirada nas memórias e lapsos de um amor de abril
A ela, e unicamente a ela